Sombra

Cansado e aborrecido, ele saiu para mais um dia de trabalho. A mesma hora, a mesma rua cheia de gente, a mesma multidão anônima em busca de algo que se perdeu. A sua frente, andava um homem apressado. Olhava a todo momento para o relógio. Era tão incrivelmente diferente, porém igual.

Sem perceber, ele e o outro estavam andando nos mesmos passos largos. As mangas da camisa do outro não estavam dobradas. Ele desdobrou as suas. O relógio do sujeito estava no pulso esquerdo. Ele colocou o seu na mesma posição. O cabelo do outro, impecável. Risca bem feita, sem embaraços. Ele lutou para que o seu ficasse igual. E quando terminou, andavam lado a lado.

Ambos entraram num prédio alto e pomposo. Uma reunião. Ele aprovava qualquer decisão que o outro tomasse, aliás, nem as contestava. Foram para uma festa. Os flashes das máquinas fotográficas lhe proporcionavam uma sensação incrivelmente boa. Almoço com pessoas importantes. Aquilo era como nascer de novo.

Tudo era tão novo e diferente… Logo os dois tinham os mesmos pensamentos. Ele não precisava mais escolher, somente seguia o outro. Era agradável não ter que se preocupar, decidir. Tinha a impressão de flutuar, porém uma força sempre o puxava para baixo. Quando percebeu, seus pés estavam grudados aos do outro. Mas ele não se importava com mais nada. Vivia agora num mundo em que só havia luz.

Lembrou-se que tinha uma família aguardando-o em casa, quis voltar, mas o brilho do novo mundo impedia-o de pensar. Foi para a casa daquele homem. Conheceu sua família, seus problemas, e então quis correr, sair, gritar. E foi aí que ele se deu conta, não passava de uma projeção. Era somente o contorno daquele homem, a luz daquele incrível mundo o atraia, e era essa mesma luz que o prendia. Ele era agora a ausência de luz, era uma imagem negra presa a impassibilidade e conformismo do não saber. Era agora, apenas sombra.

Ele queria pensar, porém não sabia mais quem era. Ele queria correr, porém não comandava mais suas pernas. Ele queria se encontrar, porém não sabia como havia se escondido. Ele queria voltar, porém não sabia como havia se perdido.

O outro foi para o quarto. E ele também. O outro deitou em sua cama. E ele também. O outro desligou a luz. E ele sumiu.

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3 Comentários on "Sombra"

  • Rafael diz

    Muito bem sacado esse tema da sombra. ficou muito legal.

  • Ricardo diz

    Nossa Raquel!

    Quando comecei a ler seu texto, não achei que me envolveria e emocionaria tanto com ele.Muito bem escrito, e muito bem “sentido”.

    Parabéns!

  • Pedro diz

    Esse final ficou muito da hora.

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