Sonho de bandido

O racismo em uma visão invertida

Tem me entristecido a ausência de maneiras criativas de dizer “para você não há lugar aqui”. Mas desta vez vai. Há de ir. Não entendo por que tantos “não”. Afinal, minha trajetória tem sido exemplar ao longo dos anos. Invejável até. Estudei os grandes contrabandistas albinos do início do século (os temidos “Ultra-alvos”). Pesquisei a fundo e visitei os mausoléus da gang de Joseph, o Esbelto. Minhas práticas da arte gerson-picaresca estão num degrau avançado. Tanto é que nas terras da grande gente honesta e trabalhadora da cidade – o extremo-sul e o leste – minha presença não tem sido festejada. Pelo contrário. Não desejo mais continuar junto aos meus de nascimento. O lugar aqui, com os brancos de origem, parece ser mais gratificante. É verdade que há pouquíssimos de pele escura nos mais festejados assaltos, mas comigo a participação há de ser disseminada. Lutarei por isso.

Enquanto minha vitória na Normandia não vem, me contento com as observações e sonhos. E audições também. “Bebendo e aprendendo, meu filho”, dizia embriagado o traficante de narcóticos muito branquelo e de longas barbas também brancas. Frente ao calor, usava as mesmas peças vermelhas invernais. Na grande trouxa que carregava às costas, injetáveis, aspiráveis e fumáveis de toda a espécie. Mas que inveja eu sentia! O que não me sujeitaria a fazer para me tornar pilantra de tal categoria? O meu desapontamento era causado, entretanto, pela discriminação das organizações criminais distintas aos nascidos da minha laia.

– O sangue de sua gente, emendou meu ídolo daquele dia, não é como o nosso. Temos a canalhice subindo pelas artérias, hic!, e descendo pelas veias, isto lhe digo. Sua gente é correta demais. Não dá para este ofício.

De onde viria minha obstinação de encaixar-me ao modus operandi dos brancos? Deve ser razão interna, acredito. Sequer conheci minha mãe, para que tivesse certeza. Contam-me que faleceu dentro de seu automóvel, em uma noite durante meus dois anos. E que a causa não foi um choque de veículos. Somente isso sei. Mas desejaria de fato ver meu pai, ainda mais depois do banquete aos sonhos que me foi oferecido em ocasião recente:

– Deves ter pai branco, Adolfo. Sua cor não é como a nossa, nem como a deles. Ficas num termo intermediário. Como sei de sua mãe que era negra, não resta opção. Concordas?

Meus olhos brilharam.

– Emprego, vida saudável, com privilégios, não há de faltar por estes lados. Nem a você, se preferir continuar entre nós. Estou me convencendo que não é seu desejo. Estou certo, Adolfo?

Meus olhos concordaram.

Irritava-me a vontade desse negro puro em ajudar-me desta maneira. É claro que não desejo ficar entre eles. Em minhas linhas, hei de assaltar dois, três bancos, ao lado de especialistas renomados. Mostrarei que sou forte, que os mulatos merecem chances nas empresas de bandidagem. Porém, se me ver fraco, representarei a mim mesmo, e só. Ajudar os próximos nunca foi virtude de quem penso em seguir. Pelo contrário.

O maior comentário daqueles dias em bares, botecos e adjacências era o anúncio de aposentadoria do Elevadorzinho, um ladrão respeitadíssimo e atuante que vivia na parte sudoeste da cidade. Diziam-me, nunca meus olhos haviam visto, que sua residência era uma fortaleza inatingível na favela Xenonópolis. Para vê-la, era preciso atravessar corredores de pobreza, cercado de habitáculos de madeira com até dois andares, imundos e mal cuidados. Em toda esquina, uma pequena aglomeração. Era o ponto de comércio das traquitanas alucinógenas, ao lado da banca daquela loteria em que se apostava nas espécies da fauna nacional. A propriedade destes pontos, aliás, era de enorme valor. Disputadíssima. Mantida à guerra com os concorrentes. Ouvia-se que ser dono de um bem localizado garantia respeito (ou medo?) de toda a comunidade de brancos que por perto se amontoava.

Voltemos, porém, à casa de Elevadorzinho. Naquela ampla demonstração de falta de recursos, sua residência, é claro, chamava atenção. Era a única que dispunha de algum luxo. A parte exterior, de tijolos bem postos, diferenciava-se e muito da fragilidade das casas da vizinhança. Por dentro, contavam-me, as paredes eram pintadas de branco. Eram poucos os móveis no maior cômodo: um mesa de cerejeira grande, com seis cadeiras estofadas em couro, um sillone colombiano, excessivamente confortável, de frente ao aparelho de televisão, e só. Quartos, cozinha e banheiro também valorizavam o espaço livre e o branco das paredes. Havia o “escritório do chefe”, mas minha fonte dizia que era lugar impenetrável por visitas. No telhado, uma antena das grandes com a forma de tampa de laranja oca.

Comentava-se que Elevadorzinho estava de partida. Para longe. Iria abandonar o crime e viajar o mundo, fazer uso da riqueza acumulada em anos de esforço. E isto abria espaço para uma ampla reformulação na estrutura de empregos de Xenonópolis. Via aí uma chance, pequena, mas era uma chance, de mostrar àqueles homens que eu poderia ser um dos novos componentes da organização. Começaria num patamar modesto, como os novatos o fazem, mas com vontade, e com todos os estudos a que me tinha submetido, as promoções seriam inevitáveis.

Fui me apresentar ao homem da casa luxuosa no velho restaurante La Cocina, no centro. Era uma despedida daquela culinária apetitosa, mesmo que servida em louças e ambiente simplórios.

– Boa tarde, meu senhor, eu disse, não recebendo resposta. Aguardei um pouco. Será que poderia tomar-lhe um instante de atenção?

Desta vez ganhei um olhar como resposta, como se instigasse: “O que quer?”

– Sei que no Xenonópolis estão se abrindo vagas de assaltante de faróis e batedores de carteiras. Tenho um currículo de estudos exemplar, amplamente dedicado aos delitos modernos, sem abandonar os clássicos, e gostaria de oferecer meus…

Fui interrompido por um seco “para você não há lugar lá na favela”. Tentei ainda alguma argumentação, mas em vão. Sentia que minha presença era mal-vinda outra vez. Talvez nunca fosse conseguir um lugar ao sol daqueles homens, a quem tanto admirava. Minhas características inatas impediam o sucesso entre eles, embora sem dúvida tivesse formação e esforços mais significativos do que a maioria. Mesmo assim, custava-me a aceitar que não me aceitavam. E se a justificativa maior fosse a minha falta de experiência prática no ramo? Afinal fora por isso que Bem-Bem quisera Nhô Augusto em seu bando. Precisava de uma oportunidade ao menos. Uns dois ou três comparsas para invadir uma casa rica do leste da cidade. Provaria meu valor.

Passei o resto daquela tarde andando, sem rumo programado. Cheguei em casa logo após o anoitecer. Ainda hesitei algumas horas antes de dormir. Arquitetava alguma maneira nova de ingressar àquela vida tão sonhada. Acabei cochilando no sofá mesmo, sem nenhuma planta em mente que solucionasse meu problema.

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2 Comentários on "Sonho de bandido"

  • Dani diz

    Jacaré, excelente texto. Reflexão ainda melhor. Bom te conhecer.

  • Paulo diz

    Fala, jaca! É, meu amigo, certas coisas são decididas no berço…

    Infelizmente.

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