Bundonice

(para ler ouvindo Socorro, do Arnaldo Antunes)

Gente, bundei. Não, calma, peraí: não é des-bundei. Não caí no desfrute e saí por aí dando pra qualquer um. É diferente: eu bun-dei. Claro, isso também não quer dizer que eu tenha colocado silicone nas nádegas, tampouco passado a usar aquelas meias-calças de palhaço, com enchimento. O bundar de que estou falando é bem diferente. Ele é aquele estado de letargia que nos ataca de vez em quando e nos faz ficar bobos, inertes.

Então, bundei. Não estou ligando mais para nada. Aliás, estou ligando, sim: o piloto automático. Nesses casos, ele é muito útil, diria que até um acessório fundamental do bundonista. Sim, porque o bundonista perde a vontade própria e tem que apelar para “tééé!!” – ir pro trabalho; “téééé!!” – namorar; “tééé!!!” … E assim por diante.

A bundonice tem vários estágios. O primeiro é o “não estou com saco, hoje”, que é o mais light, usado por pessoas normais, em situações específicas ou até para um dia inteiro. Agora, o mais heavy de todos é aquele em que você dá uma bela desistida, não se importa com nada e só faz as coisas porque elas precisam ser feitas. E, mesmo assim, só com o mínimo esforço necessário.

Bom, no momento, eu estou nesse estágio. Não tenho saco para estudar, trabalhar, namorar… Já aderi ao lema dos bundonistas: “tanto faz como tanto fez”. O quê? Como eu cheguei aqui? Bom, eu não sei. Cientificamente, a causa do bundonismo ainda não foi descoberta. Muitos defendem que elas variam de caso a caso. Particularmente, acho que um pequeno desvio na rota, uma pedra no caminho, ou no sapato, tudo isso pode levar a esse estado. Um ambiente propício e uma boa dose de covardia também devem ajudar bastante.

A boa notícia é que, apesar da dificuldade, a bundonice tem cura. E, por incrível que pareça, sua cura é seu próprio excesso. Explicando: quando chega a um nível “ótimo” , a bundonice se torna insustentável – é o momento em que você fica de saco cheio dela. Geralmente, é nesse instante que se profere a frase que marca a cura da bundonice: “EU NÃO ME AGUENTO MAIS!!!”

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6 Comentários on "Bundonice"

  • Ma diz

    Renata. Fico feliz por não ser a única a sofrer do mesmo mal, de vez em quando. Mas, ainda espero minha vez, já que lá na agencia agendamos o bundonismo, pois se todos aderem ao mesmo tempo, nada funciona (tudo bem, nada funciona mesmo). Quando minha hora chegar, escrevo para vc dizendo como foi.

    Adorei seu texto, bem escrito… Mas, sinceramente? Sai dessa porque o mundo não parou… Bj

  • Renata diz

    Poxa, será que ninguém vai comentar minha crônica???

    Tô me sentindo a cronista-leitora mais desprestigiada do mundo… : (

    Gente, fala alguma coisa, nem que seja pra descer o pau!

  • paulo diz

    Rê,

    Como te falei ao vivo, achei a crônica bem legal. bom, agora tá registrado.

    Ah, sim, ia esquecendo: protesto contra qualquer citação/recomendação de Arnaldo Antunes.

  • Renata diz

    Paulo,

    Sinceramente, também não curto muito a música, se bem que a versão da Cássia Eller é bem legal.

    Coloquei aí porque combina com o texto.

    Ah, e thanks pelo comentário. : )

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Galera, o cara é um dos titãs. Pára de pegar no pé dele. Tá certo, ele é meio esquisitão. Mas tem os seus méritos.

    Se a música for a que estou pensando, a trilha escolhida foi boa. Acho interessante a sua teoria do bundonismo. Pra mim, o bundomismo é parte importante da vida. Vc não pode estar sempre alegre e animado. É preciso compensar, balancear. Às vezes, não tem nada melhor que curtir um blues numa tarde fria e chuvosa e deixar a melancolia tomar conta. Mas o bundonismo, como qualquer boa droga deve ser utilizado com moderação. eu prefiro doses homeopáticas de bundonismo. Um dia de bundonismo pode ser revigorante. Um mês, desestimulante.

  • Renata diz

    Paulo,

    Acho que você pegou direitinho o espírito da coisa. Concordo plenamente com você. Não dá pra ser alegre, feliz e pimpão sempre. E muito menos bundonão.

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