Conexão Genebra

Pela desenvoltura com que caminhava pelas alamedas daquele shopping center da periferia, ninguém dizia que aquela moça elegante, com o biotipo esgüio das modelos mais cobiçadas, olhar no infinito, vestida com a contemporaneidade das grandes estrelas do cinema e da televisão, fosse quem fosse.

Disfarçava bem, a messalina, a malfeitora. Quem diria que aquele avião, aterrissado sobre aqueles saltos imensos, perfeitamente equilibrado, que plainava em suaves movimentos de uma vitrine à outra, na busca inconstante de algo que parecia não saber direito o que era, dissimulava olhares, preparava o bote, esperava o momento perfeito?

Preferia crianças menores, ainda bebês. O montante compensava mais. Pagava-se bem por bebês de colo, incrementos adicionais para loirinhos e olhos azúis.

O mercado internacional era exigente e não aceitava crianças fora de um determinado padrão de idade e de características físicas. Se não fosse assim, o produto encalhava, não vendia e, além do dinheiro não entrar, ainda se teria que contabilizar os gastos para manter a mercadoria: leite, fraldas, mamadeiras, chupetas e inúmeras outras coisas.

Naquele dia, não estava dando muita sorte. Havia percebido apenas duas ou três mães com seus respectivos bebezinhos. Criança maior tinha aos montes, correndo para todos os lados, chorando, berrando, implorando por sorvete e balão a gás, tropeçando e caindo no atropelo, no alvoroço do pega-pega.

Alguns pais fingiam-se de mortos. Fingiam não ver o que seus rebentos aprontavam, com a atenção convenientemente voltada para outras distrações.

Um garoto, de cinco ou seis anos, chegou a rolar dois degraus da escada e o pai, sentado num banco lendo um jornal, fez de conta que não viu o ocorrido. Levantou um olhar de rabo-de-olho, desapercebidamente, e voltou a sua leitura, como se nada tivesse com o acontecido. O garoto chorava em altos brados, tentando atrair a atenção de alguém que lhe socorresse, mas o pai nem ligou. Parecia até que o moleque não era filho seu. Pior que isto, parecia que nunca tinha visto aquela criança chorona mais gorda, que não tinha nada a ver com aquilo.

Existem alguns pais – e algumas mães – que se comportam desta maneira. Os filhos podem se matar, dizer nomes feios, brigar, morder, cair, rolar, quebrar os móveis, os vidros, os dentes, rachar a cabeça da irmã, rachar a sua própria cabeça, trincar o fêmur da velhinha mais próxima, enfim, fazer o diabo, e eles agem como se não tivessem nenhum tipo de responsabilidade no feito, independente da idade da criança. No meu tempo, a coisa era bem diferente… Outros tempos… Hoje, as crianças fazem o que querem e o que não querem…

Precisava arranjar um loirinho. Tinha contas demais para pagar e não podia ficar perdendo tempo com mercadorias de pouca paga e de pouca liquidez. Tinha que conseguir um loirinho, custasse o que custasse.

Levou quase o dia todo percorrendo o shopping center na busca da oportunidade tão esperada, tão lucrativa. Entrou e saiu de umas duzentas lojas, vasculhou a praça de alimentação, o espaço das diversões eletrônicas, e nada. Pelo visto, hoje não era o seu dia. Passaria em branco, ou melhor, em vermelho, com a conta estourada. Mais um dia de juros altos.

Já estava por desistir da empreitada quando a tal mercadoria, digo, o tal bebê, apareceu. Viu de relance dentro do carrinho a cabeleira de anjo, o rostinho aveludado e as duas gotas azúis, arregaladas, olhando, no teto do shopping, os ursinhos pendurados da decoração de Natal.

A mãe da criança tinha o perfil ideal da vítima. Notou que por duas vezes ela deixara o carrinho na entrada das lojas e fora verificar os produtos em liquidação. A próxima vez seria a sua chance. Esperaria a desatenta se entusiasmar com alguma promoção e levaria a criança, sem o carrinho.

Não demorou muito para que a mãe fosse atraída por alguma boa oportunidade. A loja anunciava o bota-fora e as pessoas se aglomeravam nas baias e nas araras, garimpando o que lhes interessava. Entrou. Largou o carrinho encostado na porta da loja.

A criança foi vendida por cinco mil dólares para um casal de holandeses que vivem na Suiça. Pagaram à vista e metade do dinheiro ficou com o dono da agência.

Hoje, Adolph mora em uma casa ampla e confortável, em Genebra, com os pais e a irmã mais velha, Marie-Françoise.

Nenhum dos dois sabem que são brasileiros.

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2 Comentários on "Conexão Genebra"

  • paulo diz

    Fala, rapaz. Parabéns pelo texto. Ficou muito legal.

    Abrs

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Até que teve um final feliz. Eu achei que ela fosse vender os órgãos do bebê. O que seria muito pior, mas não menos real.

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