Um Contículo de Natal

………………………………. 1: Sinal

– Tio, ô tio, dá um troco?
– Sai, moleque, vai trabalhar!
– Ô tio, é prum natal mais feliz…
– Nem quero saber. Tira a mão do carro!
– Mas tio…
– Xô!

………………………………. 2: Doação

– Alô?
– Boa tarde, aqui é da Casa dos Meninos Órfãos de Ituverava. Nesse fim de ano, gostaríamos de saber se você poderia contribuir para o natal dessas crianças!
– Como é?
– Se você puder fazer uma pequena doação para nossa caus …
*clic* tu tu tu tu tu
………………………………. 3: Fantasmas

– E aí?
– Esse aí, não sei não. Pão-duro até o osso.
– Tem jeito?
– Vamos tentar, né?

………………………………. 4: Natais Passados

– Psiu… ei. Psiiiiiu.
– Hm… quê… aaAAAH! Quem é você! Como entrou no quarto?
– Eu sou um fantasma. O Fantasma dos Natais Passados.
– Fantasma?
– É. Estou aqui para mostrar seu passado.
– Não precisa: do meu passado, eu me lembro.
– É mesmo? Inclusive a velhinha que você despejou na rua, no frio e na chuva?
– Lembro… não pagou o aluguel, a miserável.
– É. Morreu logo depois, abandonada, sem lar, coitadinha.
– Sei, sei… que mais?
– Precisa de mais?!?
– Tem mais ou não tem?

………………………………. 5: Fantasmas (de novo)

– Como foi?
– Nada.
– Nada?
– Nem um pinguinho de remorso. Acha que fez tudo direitinho. Vai lá, sua vez.

………………………………. 6: Natais Futuros

– Licença…
– Sim?
– Eu sou o Fantasma dos Natais Futuros…
– Já sei! Veio me dizer que ainda há tempo para eu me redimir, ser generoso com o mundo e morrer pobre e feliz!
– Bom…
– Vai contar que ninguém vai aparecer no meu funeral, muito menos chorar minha partida! Que vão ficar brigando pelos meus espólios e que meu legado será a dissídia e a ganância!
– É, desenvolve mais ou menos por aí…
– Faça-me o favor, tenho coisa melhor pra fazer!

………………………………. 7. Mais fantasmas

– Quer dizer que nenhum de vocês dois deu conta do sujeito?
– Pois é. É uma pessoa bem difícil, quase irrecuperável. Por isso a gente te chamou. Nesses casos, só com você, mesmo.
– Deixa que eu resolvo. Comigo não vai ter frescura.

……………………………….8. Natal Presente (ou: Agora vai!)

– Parado aí!
– Aaah! Calma, rapaz, larga essa arma.
– Cala a boca. Você sabe quem eu sou?
– Não…
– Eu sou o Fantasma do Natal Presente. Vim pra te mostrar como vai ser essa sua noite de natal.
– Ufa! Achei que era bandido…
– Não relaxa ainda não. Os outros você levou no papo, mas comigo o negócio é outro. Se a caridade não for por bem, é por mal!
– Calma, calma, vamos conversar um pouquinho.
– Não tem conversa! Aqui, é na base do seqüestro relâmpago. Pode preparar o cartão, que a noite vai ser longa.

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8 Comentários on "Um Contículo de Natal"

  • Rafael diz

    Pois é ……. quem nunca viu esse filme????? hehehehe muito boa a sacada do texto. Ah!!! muita calma, o natal vai ser bom, não foi???

  • Seja bem vindo Pedrão. Excelente que você citou Ituverava. Muito boa sua crônica.

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Quer a opinião de um redator ao invés de um engenheiro? Ficou ducaralho. O final é muito legal. É oportunista e engraçado. É claro que é politicamente incorreto, do contrário não teria a menor graça. Eu não classificaria o texto de “malvado” e sim como uma crítica ácida e bem-humorada ao materialismo: tem gente que só se toca que existem pobres quando são assaltados.

  • Renata diz

    Assino embaixo dos comentários do Vasconvellos.

    Vai fundo que você tem jeito pra coisa, Cunha!!!

  • Renata diz

    Curti. O jeito como o texto está estruturado ficou bem legal, tá bem humorado, sacadinho… Quem foi que não gostou mesmo, Pedro? Ah, desencana deles que eles não tem a menor importância…

    : )))

  • Pedro diz

    Esse texto quase ficou retido no controle de qualidade.

    A Camila ficou com medo… achou “muito malvado”. Meu pai achou que era uma apologia à violência urbana (???). Coisa de engenheiro.

  • Deliciosos diálogos! è difícil rir e pensar ao mesmo tempo, seu contículo proporcionou isso!

  • Camila diz

    Verdade ! Quase ficou retida no controle de qualidade, onde já se viu uma maldade dessas?

    Brincadeira … Ficou ótimo, acho que é de família. Parabéns !!!

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