A História do Boi Tornado

Boi Tornado saiu certo dia, como de costume, para pastar. Saiu caminhando e ruminando suas memórias. Olhava o capim. Olhava o céu. Só olhava. E olhava. Viu no capim algo interessante.

Como eu sei disto? Ora, se não fosse interessante ele não olharia, mas se não fosse interessante e ele olhasse assim mesmo, a partir dali seria interessante, não?

Ele viu um anel enquanto pensava, digo, pastava.

Mas ele não sabia que aquilo era um anel, nunca tinha visto um antes. Animais daquela raça não têm dedos para usar anel . Por que será, então, que ele apanhou o objeto no chão? O que será que ele viu naquele objeto? O que será que representava o objeto para Boi Tornado no momento em que ele o pegou no chão? Você já experimentou apanhar algo no chão? Sartre já.

Ele pegou o anel e levou para casa.

Vaca Viquinha, sua esposa, e Bezerro Berrinho, seu filho, ficaram encantados com o novo e misterioso objeto. Viquinha foi logo colocando-o sobre a TV, assim eles sempre poderiam apreciá-lo. Além do mais, ela pensava em um piscar de olhos, Posso agradar e impressionar ao mesmo tempo as visitas aqui em casa. Ótimo Boi Tornado ter encontrado esta coisinha.

E lá ficou o anel, sobre o centro de atenção da família. Em frente àquele ícone de fetiche e hipnose a família se reunia todos os dias por volta das 20h para entender um pouco mais a respeito do mundo em que viviam, recebendo informações transmitidas instantaneamente e, algumas vezes, ao vivo.

Ficaram então sabendo como ia a Guerra na Lósnia Martinovina, as novas medidas do atual Presidente e seus desengonçados ministros, motivo suficiente para todos na sala rirem e se sentirem felizes por serem uma família. Pai, mãe e filho. Todos completando-se uns aos outros.

Através da TV, tomaram parte na homenagem a um amado, bendito, cultuado, dogmático, empolgante, fulguroso, grandioso, harmonioso, ígneo, jovial, luminoso, majestoso, notório, ofuscante, paternal, quente, robusto, sapiente, talentoso, universal, vanguardista, eXamine Your Zipper filho adotivo de uma cidade que não se faz a menor idéia de qual seja.

Muitas outras notícias eram transmitidas também. E causavam outras reações – Um tanto óbvio, não? – tais como indignação ao se saber que certo indivíduo que fazia parte de uma parte lá do governo, tinha ganhado não sei quantas vezes na loteria. De início Boi Tornado pensou, Nossa que cara de sorte!, depois ficou sabendo que não era sorte e sim maracutaia. E, no meio de uma ruminada e posterior reengolida, murmurou, Mas que filho da puta!

Neste dia Boi Tornado foi dormir mais cedo. Ele não podia admitir o que havia visto na TV, contudo encontrava forças para agradecer à mesma TV por poder proporcionar isto a ele. Aquele fato abriu algumas portas de sua percepção.
Em toda sua ira, o que mais irritava Boi Tornado era o fato de ninguém fazer nada para mudar a situação. Ele sabia, no fundo, que aquele sem-vergonha iria continuar roubando as loterias, e isso o deixara terminantemente encolerizado, pois era um ávido apostador em loterias. Para Boi Tornado, loteria é sinônimo de religão, Conheço todas as manhas de se apostar, sei como funciona toda a Matemática dos Números, sei qual o número que mais sai e conheço o número que mais demorou a sair, sei de tudo! Podem me perguntar, assim se gabava ele aos amigos. Fazia sua fezinha semanalmente desde que se conheceu por gente, e segundo relatos de familiares, devidamente catalogados, isso ocorria até mesmo antes de gente Boi se tornar.

Boi Tornado precisava acreditar em algo, e agora, o que restava a ele? Apenas as mãos atadas.
Para Boi Tornado era isso que sobrara.

Matutava ainda, De repente, um dia desses eu acertei os números, mas como aquele filho de uma vaca deu o tombo lá em cima, eu aqui embaixo fiquei a lamber os cascos. Pobre só se fode! Gritava ele dentro de seu subconsciente.

Como eu disse, naquela noite Boi Tornado foi se deitar mais cedo, porém você acha que ele dormiu? Até poderia, isto é apenas uma estória, ou não? O fato é que se ele tivesse dormido esta estória seria diferente, não seria mais esta
estória, ou seria? Será que um dia cessarão minhas indagações?

Não sei se deu para perceber, mas Boi Tornado não conseguiu dormir.

Comprovou que Viquinha dormia. Descobriu pelo ronco do motor do carro dos sonhos dela, ela era vidrada em automóveis, e Boi Tornado viu o REM nos olhos de Viquinha, sabia que ela sonhava com carros toda noite, e se não fosse possível toda noite ter o mesmo tipo de sonho, toda manhã Viquinha afirmava ter sonhado com carros e corridas, para Boi Tornado bastava, ele a amava.

Levantou-se da cama e saiu, passou em frente ao quarto de Berrinho. Também dormia. Que bom! Ao balançar a cabeça afirmativamente pensou ele.

Dirigiu-se para a sala, viu a TV, voltou-se possesso, Amanhã tenho que trabalhar e não dormi até agora! Foi até a cozinha, bebeu um copo de água. Ficou um tempo a olhar a pia, o fogão, o saleiro, os temperos, a têmpera, o fio da faca, o cabo dela. Boi Tornado segurou-a, levantou-a; a lâmina reluzia a luz difusa vinda de um poste que passava através do vidro martelado da janela que ficava ao lado da pia, e de um só golpe cravou a faca. Nenhum líquido, nenhum líquido saiu. Mais uma vez e nada. Outra vez e nada. E nada. E nada, e nada. Boi Tornado se contorcia todo naquele momento de raiva, realmente ele não estava com sorte. No meio de três dúzias de laranjas ele pegou uma que estava completamente seca. Sem uma gota de suco dentro, Vai ver, minha sorte é tão grande que todas as outras trinta e cinco estão do mesmo jeito, arrematou ele, e, sem comer nada, só com a água no bucho, deixou a cozinha.
Voltou na sala, olhou mais uma vez a TV. Sentou-se. Olhava a TV. Foi quando o objeto sobre o hipnótico eletrodoméstico começou a brilhar.

Fachos concêntricos de luz branco-azulada passando ao carmim, depois a verde alaranjado, eram cuspidos fora do objeto. Boi Tornado cravava as unhas na poltrona; os lábios estavam trêmulos, os olhos arregalados, o nariz ofegante, as orelhas mudas. A situação era apavorante.

E uma onda de choque de explosão atômica tal qual a exibida no filme The Day After, ou aquela de Hiroshima ou mesmo Nagasaki – lembra-se? – varreu o corpo de Boi Tornado com um vento que invadia sua alma.

Apareceu uma figura em sua frente. Uma mulher. Uma mulher linda. A mais bela que se pode ver e parecia ser muito mais que isto.

Passada a tormenta, Boi Tornado olhou em volta e qual foi sua surpresa ao ver toda a sala revirada! A mulher então disse, O que você, sua mulher e seu filho cobiçavam neste ato? Agora o que estava mudo em Boi Tornado era o cérebro, que não era lá grandes coisas. Não se deve esperar muito das pessoas… pensava ela neste momento quando algo despertou em sua mente – percebera que havia sido um pouco rude demais com o pobre animal.

Após alguns instantes disse Boi Tornado, Eu não tive a intenção… E como uma avalanche demolidora ela replicou, Aposto que você diz isso para todas!

Aquilo foi a gota d’água, ou como se diz em uma sala de bingo, a boa, e se realmente existem males que vêm para o bem, Boi Tornado se derreteu em prantos, devido ao stress ao qual foi submetido.

A mulher, já um tanto desconcertada, querendo ser gentil, apressou-se em acudir o pobre diabo, Por favor, eu não tive a intenção… Boi Tornado que estava de quatro com os olhos e a cabeça voltados para o chão sem nada ver, levantou a cabeça. Apoiando a mão direita sobre o joelho do mesmo oriente do corpo, forçou e ficou de pé. Já se recompondo e um tanto ressentido, proferiu estas palavras que agora escrevo, Foi isso o que eu disse e nem por isso faço com você trocadilhos!!!

Agora, parecendo tudo mais acertado, sentaram-se no sofá após juntos também retirarem tudo que com o vento voara sobre o móvel. Meu querido, perdoe-me por favor. Ando nervosa ultimamente e quando percebi seu nervosismo a única coisa que me restava é isto que estamos fazendo agora, conversar, … Verdade, ando muito nervoso também. São tantas as desilusões que passamos, Deixe disso, o que o aflige? Muitas coisas me afligem e me magoam. A última foi o logro que levei na loteria, Meu caro Boi Tornado, existem muitas coisas que você sabe e que pode vir a saber, porém existem muito mais coisas de que você nunca se dará conta. Você vive num mundo de muitas contradições. Por exemplo, você não sabe, mas você mesmo é um exemplo disso. Toda sua vida foi planejada muito antes de você nascer. E veja bem, isto não foi feito por seu pai nem pela sua mãe, tampouco é uma mágica que se fez a si própria.

Ninguém sabia de antemão que você iria nascer. Você vive em uma malha que começou a ser montada há muito tempo, e a impressão é que essa trama está criando uma vida própria e envolvendo a si mesma nela própria. Você, meu amigo Boi Tornado, foi feito assim, tornaram você um boi só para ficar mais fácil de manipulá-lo, e para tanto lançaram mão de muitos ardis nefastos com a mesma naturalidade com que se limpam após defecarem. Irmão Boi Tornado, aproveite esta chance de se tornar um homem!

Quer dizer que a minha vida na verdade não existe? Nunca fui o que pensava ser? O que eu era então, se um dia algo eu fui? E neste momento você me diz para eu me tornar de uma hora para outra algo que eu nunca fui. Que devo aproveitar esta chance. Que chance é esta? Como posso fazer isso?

Meu querido, como fazer isso eu não sei, também não sei tudo, e se soubesse não creio que lhe contaria… ou quem sabe contaria… não é importante este fato… só sei que seu nome não foi uma tentativa sem sucesso de homenagear um cantor tupiniquim de Soul da década de 70 que seus pais tentaram fazer, Tudo bem então. Eu vou lá dentro pegar o amendoim e a pipoca pra gente assistir ao Corujão, pois já perdi o sono nesta noite.

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3 Comentários on "A História do Boi Tornado"

  • Jacaré diz

    Aê! Enfim apareceu o Grande Lobo Toni Tornado Tim Maia. Muito estilosa essa história, Lobão, também gostei bastante.

    Cheia das novehoras, requintes psicodélicos, delírios ótico-fisicos, conversas sem travessão, mergulhos psicológicas e por aí vai.

    Mande notícias pros irmão.

  • Rafael diz

    Bela fábula, bela fábula. Pode continuar escrevendo que eu gostei. Valeu Big Wolf!

  • paulo diz

    Lobão, gostei muito. Curti a levada e a história. Material de primeira, rapaz! Continue escrevendo para nós… hehehehe

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