Dener e a vida após a morte

Outro dia sonhei com o Dener. Ele me contou como é diferente o purgatório de jogador de futebol. Para a absolvição dos pecados, cada um tem que jogar na posição inversa àquela de costume na vida terrena. Não é muito simples entender, mas vamos tentar. Atacante goleador vai para a zaga aprender como é bom ter a vida infernizada, com a torcida no desespero. Defensor perna-de-pau atua na frente até entender o que é enfrentar zagueiro bom – e não deixar o público enfurecido.

O Garrincha, por exemplo, jogou de lateral-esquerdo. O Everaldo, aquele da Copa de 70, espiava do lado de fora e só ria. Didi, um dos últimos craques a aparecer, ficou sem posição. Ninguém sabia onde que ele poderia jogar. Consultaram o Paulo Machado de Carvalho. Nada. Depois o Charles Miller. Nada também. Por fim, deixaram o homem subir em paz, como uma folha que o vento leva.

A novidade mesmo era Zizinho, o Mestre Ziza. Recém-chegado, foi logo dizendo que a Copa de 50 era assunto morto para ele. Recusava-se a comentar qualquer coisa. Não respondia perguntas. O pessoal olhava meio de longe, com muito respeito. São Pedro ficou encarregado de fazer a recepção.

Deu dó do Luizinho, o Pequeno Polegar, há alguns anos. Colocaram o coitado de beque, com aquele tamanho todo. Vinha um centro-avante palmeirense e passava por cima. Não que derrubasse Luizinho. Ele era obrigado a jogar sentado e o atacante abria um pouco as pernas, encobrindo-o.

Muita gente, no entanto, não passava pelo purgatório. Quem se lembra do Sérgio Gil? Morreu tão jovem, quase uma criança, e São Jorge arrumou uma pontinha pro moleque no time do céu. Ah, o time do céu… sonho de todos.

No céu não tem esquema tático. Todo mundo é atacante, inclusive o goleiro. Não tem juiz nem bandeirinha. Não tem cera. O estádio está sempre lotado e nunca termina menos que 5×5. Quer dizer, 6×5. No céu não tem empate.

Voltemos ao Dener. Triste, ele viva cabisbaixo. Olhando as trapalhadas que deixavam sua família com fome, aqui na Terra. No campo, deixaram ele escolher. Ou jogava de goleiro ou de cabeça-de-área. Ele foi na segunda opção e pagou duro pelas tentações da vida terrena. Um pessoal da velha guarda, nascido em Limeira – acho que do futebol amador -, ia e voltava, fazia um oito, tabelava, dava olé. De tanto driblar o Dener, os homens cansavam. E saíam felizes da vida.

Depois, Dener acabou subindo ao céu e logo encontrou Eusébio, que o apresentou ao Friedenreich. O artilheiro se espantou com a habilidade do rapaz. Friedenreich estava de saco cheio de fazer gol e queria se aposentar. Procurando um substituto, comandava uma peneira às segundas-feiras. Passavam-se os anos e não via ninguém tão especial. Quem sabe fosse agora.

Para minha tristeza, naquele momento, o filho do vizinho da frente deixou cair a bola no meu quintal. E então despertei daquele sono vespertino, quase na hora do jogo da TV.

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5 Comentários on "Dener e a vida após a morte"

  • Dani diz

    Comentário estúpido: show de bola!

  • Pelo visto, quando eu morrer vou fazer dupla com alguns daqueles jogadores do Limeira…. e muitos gols! :p

  • paulo diz

    Cara, eu espero poder ser o juiz. Só para anular os seus gols, Volpa.

    Ficou muito legal o texto, Jaca.

  • José diz

    Espero que demore, mas quando chegar a hora com certeza vou ser um craque deste time no purgatório, pois aqui na Terra sou um verdadeiro perna de pau.

  • walter diz

    adorei essa crônica

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