Pai

Tudo o que ele menos queria era ter filhos. A menina nasceu quando ele tinha 58 anos. Casar no papel não estava nos planos. Eles se casaram quando a filha completou 2 anos. Ter outro filho estava fora de cogitação. O menino nasceu quando ela fez 3. Ele nem deixou a mãe escolher o nome. Pôs o seu próprio, acrescido de Júnior no final. Agora ele tinha tudo o que nunca sonhara. Seus filhos passaram a ser inesperadamente a razão de sua vida.

A mãe, 32 anos mais jovem, saía para trabalhar enquanto ele preparava o almoço das crianças. Na sua idade era impossível conseguir outro emprego. Em uma entrevista, chegaram a dizer que não poderiam contratá-lo pois ele era melhor qualificado que a pessoa para quem trabalharia e poderia, assim, “roubar” rapidamente o cargo do chefe. Em outra ocasião decidiu mentir sobre a idade para conseguir a vaga. Aparentava 10 anos mais jovem. No auge do desespero, colocou sua coleção de livros antigos à venda. Ele achou que alguém ao passar pelo Largo do Arouche, poderia se interessar por filosofia alemã exposta na calçada.

As crianças cresceram e nunca questionaram por que o chocolate era partido em partes iguais. Saber dividir foi seu lema. Os filhos sempre acharam que o pai tinha muito dinheiro, que podia comprar tudo o que quisessem. Só depois de adultos perceberam que o pai lhes ensinara a serem humildes em seus pedidos. Na verdade, aquele homem imponente, alemão por nascimento e brasileiro de coração, que exerceu cargos executivos nos tempos áureos, sempre fora extremamente humilde quanto aos pedidos feitos a Deus. Primeiro pediu para morrer em lugar de seu irmão mais velho, seu ídolo, quando este estava doente. Depois pediu que Deus lhe concedesse saúde suficiente para continuar vivo e educar seus filhos. Agradeceu por seu primeiro pedido não ter sido atendido.

Não era religioso, mas nunca reclamava quando sua mulher trazia pastores, pais de santo ou espíritas para orar por sua saúde, que era frágil. Também nunca se negou a comer “bichinhos de amendoim” ou tomar chás de ervas milagrosas. Apesar de nunca ter presenciado algum, acreditava que milagres aconteciam. Estar vivo aos 79 anos era um.

Achava que seus filhos ainda não estavam preparados para absorver seus ensinamentos e resolveu deixar por escrito suas idéias para que eles as lessem de tempos em tempos. Achava que a sociedade já passara do tempo de cometer os mesmos erros e resolveu publicar suas idéias em um livro que vendeu apenas 2 exemplares. Enviou alguns livros para professores de sociologia, padres e advogados e esperou por opiniões sinceras. Todos concordavam com o que estava escrito, mas nenhum jamais o admitiu publicamente.

Incentivou seus filhos a lerem, viajarem e tirarem suas próprias conclusões sobre o mundo. A filha mais velha decidiu ser publicitária, o mais novo cientista político. Os dois estudaram em universidades públicas, não porque se achavam capazes de passar nos vestibulares, mas porque o pai os incentivou com o argumento de que não custava tentar, afinal, quem não arrisca, não petisca.

Vivia contando histórias de quando era jovem. Repetia as mesmas piadas e fazia os filhos rirem como se fosse a primeira vez que as estivessem ouvindo. Ninguém nunca teve coragem de dizer que já as sabiam de cor. Ficava muito sério quando falava sobre as vezes que ficou muito doente e achou que ia morrer. Afirmava que os anos terminados em 2 eram os piores. 1922, 32, 42 e assim sucessivamente. Faleceu no dia 31 de dezembro de 2000.

Sua filha tomou coragem e decidiu seguir os conselhos do pai e acreditar em seus sonhos: resolveu virar escritora. Não teve dúvidas sobre qual deveria ser o tema do primeiro conto, e batizou-o carinhosamente com o título de Pai.

Compartilhe!

4 Comentários on "Pai"

  • Puxou lá de dentro, minina. Tocou.

  • paulo diz

    O texto é belíssimo. Parabéns, Bárbara!

    :D

  • Barbara diz

    Acabei de ter um troço!!! eu não sabia que estava no ar!! Fiquei muito emocionada!! Valeu amigos.

  • Gilma Varella diz

    Comecei a ler e não consegui parar. Fantástico. Muito bem escrito, muito bonito. Tocante. Parabéns

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *