Preposições

Nunca gostei de preposições, nunca. Desde minhas primeiras palavras esse medo me assombra.

Eu sei que elas são importantes, necessárias e compreendo suas funções na sintaxe e conectivas. Mas, como um claustrófobo que sabe o quanto um elevador facilita a vida das pessoas e, mesmo assim, usa as escadas; vou levando esse medo adiante pelas linhas simples de minha crônica.

Tenho medo de suas distorções, de não ser entendido, ou pior, de ser mal entendido.

Quando criança, costumava viajar todos os anos com minha família para visitar nossos parentes no interior de São Paulo. Roseta. Cidadezinha que não foge à arquitetura típica: Uma igreja na praça central e todas as casas ao redor dela.

Num certo ano, depois da longa viagem, eu, minhas irmãs e meus primos brincávamos enquanto nossos pais contavam suas novidades e lembranças. A conversa dos adultos me chamava a atenção. Fiquei admirado vendo e ouvindo minha mãe contar sobre suas experiências, seus sofrimentos e alegrias ao longo da vida. Me dava orgulho olhar aquela mulher forte e determinada.

Essa admiração cresceu tanto, que eu quis mostrar o quanto reconhecia os valores de minha mãe e falei para que todos ouvissem:

– Minha mãe é uma mulher da vida.

Gelo. Essa sensação sempre acontece quando todos te olham direto e você percebe que não é tão bonito assim para chamar a atenção. Minha mãe me levou para um quarto e me explicou, longe dos olhares de todos, a diferença entre “mulher vivida” e “mulher da vida”. Chamei minha mãe de puta e consequentemente, chamei eu mesmo de filho da puta.

Com o tempo, escondi esse medo por trás dos livros de gramática, da literatura correta, da expressão exata e de professores que ensinavam sem questionamento. Como se, dessa maneira, eu pudesse dominar as preposições. Não pude.

O medo ressurgiu quando fui aprender inglês no Canadá e lá, elas apareceram de forma diferente, disfarçadas, importadas, mas, as mesmas: in, on, over, at, beneath…. DESGRAÇADAS!!!! Nunca sabia qual usar, quando, como…

Porém, foi enfrentando mais uma vez esse medo que encontrei algo que nos eleva das gramáticas e faz entender o sentido obscuro das palavras: “O que na verdade eu quero dizer com uma preposição?”

Tenho medo de preposições, mas tenho medo maior de deixar elas mudarem os rumos da minha vida.

Quero “viver o mundo” e não “viver no mundo”.
“Ir ao encontro dos meus sonhos” e não “ir de encontro aos meus sonhos”.
“Aproveitar a amizade” e não “me aproveitar das amizades”.
“Ter medo por você” e não ” ter medo de você”.

Quero mais “com”. Menos “sem”.
Mais “por”. Menos “contra”.
Mais “até”. Menos “após”.
Mais “entre”. Menos “sob”.

De: Ricardo Bollier. Para: Você Leitor.

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4 Comentários on "Preposições"

  • Por: Volponi

    Para: Ricardo

    Tesão!

  • Luciana Hakozaki diz

    também me embaraço. vou de encontro com sua crônica e ao encontro de mais um preposicionado. (isso fez algum sentido???)

  • Tatá diz

    Não é que ele escreveu mesmo?! Muito bom, Ri!Tô com saudades…

  • Barbara diz

    MUITO BOM!! PARABENS!

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