Verônica

Aquele silêncio matinal infernal, acentuado pelos rostos tranqüilos de pessoas que tiveram uma noite contínua de sono, perturba mais uma vez os pensamentos de Verônica. Perturbam porque assim eles parecem gritar dentro de sua cabeça, e aqueles rostos tão amenos parecem levianos diante da vidinha medíocre que Verônica enxerga neles. Por que parecem tão satisfeitos com essa abundância de convencionalidade? Nenhum desespero, nenhuma olheira que denunciasse alguma aflição e logo um lampejo de consciência que lhes tirasse o sono, nem mesmo um atraso causado por uma noite em claro de puro sexo selvagem com seu vizinho que acabara de se mudar, ou mesmo por um ataque de preguiça que revelaria alguma proximidade ao ser humano e não a um ser sistemático e tão encaixado nas regras sociais. Nada, nada, só o maldito silêncio. A angú! stia de Verônica aumenta a cada minuto que passa e o silêncio não é cortado pelo toque do telefone, um chamado de alguém que a salvasse , de alguém não, “o alguém”, o mesmo alguém e o mesmo toque que não aconteceu e lhe tirou o sono nas últimas noites. Apenas o silêncio a que pensava um dia se acostumar porque o sentia mesmo estando entre amigos, numa festa ou alterada quimicamente.

A idéia de ser uma mulher nascida numa era pós-feminista, cheia de direitos, mais esclarecida e sem preconceitos a irritava mais por ainda ter que se sujeitar a este papelzinho de sombra feminina. Uma raiva enorme que brotava do fundo de seu útero e subiu até seu corpo a fez gritar:

– Chega!

Aqueles olhos apáticos que a rodeavam se centraram nela e neste momento ela desejou nunca ter quebrado o silêncio que tanto a incomodava, ainda mais porque agora queria se entregar a seus pensamentos. Não podia perder este momento de revolta que poderia se! r o início de sua libertação. Então, levantou seu rosto enrubrecido, jogou sua franja com o movimento de sua cabeça e encarou todos como quem diz “fodam-se todos, isso não lhes diz respeito e eu não tenho medo de ser louca” . Afinal, quem nunca pensou alto que atire seu manual de boas condutas primeiro. Além do mais, tentar ser normal é um saco. De repente lhe veio um pensamento à cabeça – Será que valeria a pena acabar com uma fonte tão segura de sexo bom e fácil?

Verônica já não tinha mais paciência para agüentar conversas que na verdade não passam de cantadas baratas de pessoas que dizem um monte de baboseiras para se parecerem interessantes, e nem tão precipitadas em transar com você (mas que na verdade só querem é te comer mesmo). Todo esse ritual de acasalamento parecia uma verdadeira tortura, às vezes até achava que deveria aturar isso de vez em quando para uma boa trepada, mas realmente não dá para se ter um sexo bom ! se não se pode admirar quem te fode.

Isso é uma merda mesmo, pensou ela. Aliás esse é um mal de que os homens não sofrem, afinal eles parecem nunca ter critério; tanto eles podem estar contando vantagem por ter pego a menina mais gata da balada quanto terem comido uma bagaceira qualquer. Pensando bem, Verônica começa a ter consciência que existe uma sabedoria mesmo que estúpida nos homens, a sabedoria de se divertir com o que tem à sua volta sem expectativas, apenas se divertir. Ela olha para o visor de seu telefone num lampejo feminino e não vê nenhum rastro de chamada nele, desvia seu olhar com raiva e só então percebe que ao seu redor, no meio daquele mar de convencionalidade, há alguém que parece esconder debaixo daquelas roupas caretas um corpo firme e macio louco para ser tocado. Era um rosto simpático e receptivo.

Num impulso da sabedoria adquirida ela se dirige à mesa de Joana e diz:
– Oi, Jô. O que você está pensando em fazer hoje?

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1 Comentário on "Verônica"

  • Raquel diz

    Dava para ir se identificando, até… hum…ops, deixa para lá! Legal Lu! Beijos

    Kel

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