Memórias póstumas do meu fim

A vida nômade nunca me agradou por completo. Conheci em profundos detalhes cada canto da parte sul da cidade, é verdade. Disso, nunca tive nada a reclamar. O que sempre me incomodou foi justamente ter sido um incômodo para as pessoas. Vivi a desbravar cozinhas, salas e quartos; fui um intruso em todos os meus dias.

A manhã de minha morte começou tranqüila. Entrei por uma festa da porta de trás de uma residência não muito simples e também não muito requintada. Eram três quartos, o maior para o casal de adultos e os outros dois para duas jovens moças. A sala, grande, tinha o formato de uma esquina, o que às vezes confundia meus sentidos. Mas era a cozinha o meu lugar predileto. A porta que saía do corredor central abria o disputado cenário de farturas. Nesse instante começou minha derrocada.

Meus olhos viram mas não deram atenção para o par de sapatos tamanho 35 ou 36 logo à direita. Fixaram-se no bolo de chocolate com cerejas que estava esparramado no chão. Não tive a mais leve pretensão de pensar o que o bolo fazia ali, mas, de qualquer forma, ele estava. Alguns segundos de distração (ou seria de tentação?) foram suficientes para os sapatos se multiplicarem e virarem quatro pares. Era domingo – me esqueci de lembrar antes da invasão – e todos da casa estavam lá. Deu-se início à perseguição.

A cozinha, antes imensa, diminui. Mesmo assim, as frestas das portas pareciam cada vez mais longe. Senti a aproximação fulminante de uma sola de borracha e saltei para o lado. Escapei. De repente, mais outra pisada. Outro pulo, já suando. A esta altura já não eram apenas seis pés atrás de mim – seis porque, dos oito, dois eram tímidos, quase imóveis. Havia uma vassoura também, operada pela mais alta daquelas pessoas.

A janela parecia um escape viável, não fosse tão alta. Um momento de hesitação entre arriscar um salto até ela e correr para debaixo do fogão seria mortal. Fiquei com a segunda opção. Ouvi aquelas vozes nervosas, histéricas:

– Nojenta! Mate-a logo, papai! – logo pensei ser a voz daquela pessoa mais distante, que evitava me perseguir.

– Querida, como o bolo foi ao chão desse jeito?

– Mamãe, foi um acidente. Não pude evitar. Esbarrei na mesa depois de escorregar neste piso, que parece feito de sabão! – entendi: minha tentação foi causada por uma ação involuntária.

– Essas coisas são a desgraça. Trazem-nos doenças, sujeira! E o que é pior: quase sempre escapam . É realmente intrigante.

Subitamente fui iluminado por todos os lados. Meu teto – o fogão – havia sido arrastado e eu estava ali: no centro da mira dos meus inimigos. Esforcei-me para pular cerca de meio metro à frente onde um corredor, surgido pelo deslocamento do fogão me levaria à saída de trás. Em vão. Atingido, vi pedaços de mim mesmo separados do todo. Mais um pancada decretaria meu fim.

Desta forma terminou minha última história.

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4 Comentários on "Memórias póstumas do meu fim"

  • Jacaré diz

    Nooooossa, nem eu lembrava mais dessa! Me desculpem os cronistas por quebrar o protocolo escrevendo eu mesmo o primeiro comentário. Valeu, Volpa, por ter fuçado nas memórias antigas.

    E como não achei nenhum lugar para parabenizar os amigos pelo novo servidor. Como diria aquele expert em informática, ficou ótimo, adorei o laranjinha.

    Outra coisa: um bom tema para escrever uma crônica nesta semana é a extraordinária correlação ideológica entre a bandeira do MST e o Arafat. Sem-terra daqui e sem-terra de lá. Paulão, acho que fica mais na sua praia esse tema. O que acha?

  • Jacaré diz

    Corrigindo, o segundo parágrafo deveria ser: “E como não achei nenhum OUTRO lugar, APROVEITO para parabenizar os amigos pelo novo servidor. Como diria aquele expert em informática, ficou ótimo, adorei o laranjinha.”

  • Rafael diz

    Jaca….. acho que vc tem andado ocupado lendo o Kafka. Bem legal, Parabéns!

  • paulo diz

    Jaca, legal a sugestão do tema. Vou tentar, mas não prometo para essa semana! Legal o seu texto. Não pare de mandar mais, velhinho.

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