O Rei e o caixeiro de Toboso

Dom Caixote da Pinta queria ser prefeito de Toboso, município do vale da Doidivana. Convidou para vice o desocupado, Santos Bandulho, reconhecidamente, um homem fiel, íntegro, livre de pecados e bom. Muito bom.

Não teria adversários. Mesmo assim, entrou na campanha com todas as forças. Dormia três horas por dia, percorria cada viela indo de casa em casa. Apertava a mão até de defunto. Bandulho não compreendia o medo do candidato que, além de ser o único, era bem quisto na cidade.

Caixote chegou a Toboso no início da década de 50, disposto a fazer fortuna. E fez. Era o único caixeiro viajante que atendia o município. Na década seguinte, perdeu quase tudo. Trocou o quase por livros. Aí residia seu medo.

Faltavam dois dias para a eleição. Nos últimos conjuntos de 24 horas, o candidato já não dormia. Fazia contas, tentava imaginar quem iria rejeitá-lo nas urnas, e nenhum nome surgia. Até que um fato novo mudou o cenário político do lugar. Jesus Cristo aparece na véspera da votação e diz que também será candidato. Caixote acorda assustado e, com medo de ser derrotado, foge.

Dos cem eleitores inscritos, um não compareceu e noventa e nove votaram em Dom Caixote. Como também não pareceu para tomar posse, a cadeira foi ocupada por Santos Bandulho. No quarto do candidato foram encontradas uma
Bíblia e uma carta.

“Aos estimados tobosenses e demais habitantes da Doidivana,

Peço vénia para render graças aos meus fiéis prováveis eleitores.
Todavia, diante da postura sectária da Justiça Eleitoral que aceitou a
candidatura do Rei dos Reis, opto pela renúncia.
Renuncio por ser um democrata juramentado e contrário à monarquia;
Por não concordar com a vida faustosa dos monarcas;
Por não admitir a maléfica combinação Igreja-Estado;
Por não aceitar a forma demagógica usada pelo Nazareno para atrair
eleitores tratando-os como ‘irmãos’;
Finalmente, por considerar, no mínimo, desigual o tempo de exposição na
mídia e período de duração da campanha de meu antagonista. São mais de
dois mil anos de intensa publicidade. Santinhos, bíblias, crucifixos, sem
mencionar o número de comitês espalhados pelo mundo, o que caracteriza
abuso dos poderes econômico e divino em prol de uma candidatura.

Doravante, seguirei minha vida em outro lugar. Como tobosense de coração, sempre desejei o melhor para esta circunscrição territorial. Um dia retornarei para salvar a cidade e inaugurar uma nova era.

Dom Caixote da Pinta
Deus seja louvado!”

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2 Comentários on "O Rei e o caixeiro de Toboso"

  • Rafael diz

    Muito bom, Adriano. O seu texto tem ritmo, concisão e o essencial: humor. Além, é claro, de uma pitada de sarcasmo. Continue assim, parabéns.

  • paulo diz

    Muito legal. Se eu fosse um pouco mais maldoso poderia achar que é uma crítica velado à estratégia eleitoral do Garotinho…

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