A vida em 30″

Dois homens de costas para a câmera, trajados como altos oficiais alemães. O mais magro segura uma arma na mão direita. O cenário é de ruínas. Em silêncio eles contemplam lado a lado o que um dia foi grandioso.
Ao fundo ouvem-se explosões, tiros, tanques e gritos.

– Você sabe que eu não posso fazer isso.
– Mas você deve. Além disso, é uma ordem.
– Eu sei. Mas antes de tudo, somos amigos.
– E como meu amigo, você mais do que ninguém deveria entender meus motivos.
– Poderíamos tomar veneno, como as mulheres.
– Então, morreríamos como mulheres, não soldados.
– …
– Certifique-se de que a cova esteja bem funda e não economize na gasolina. Não se esqueça de matar meus cachorros. Quero que sejam queimados junto comigo. Não quero que aqueles comunistas malditos encontrem nada além de cinzas do que me resta. Vamos, soldado. Levante esta arma.

O mais magro vira-se solenemente para seu superior, que se mantém impassível de costas, e ergue a arma, apontando-a para a cabeça de seu mestre.

– Ainda não posso acreditar que tudo que construímos está destruído.
– Não meu amigo, o que for realmente bom, vai permanecer e durar por muitas gerações.

Ele hesita. Olha para a rua e vê um fusca passando.
Entra música: clássica, de preferência Wagner.
Goebbels compreende e sorri.
Tela escura. Estampido de um tiro. Fade in: Volkswagem. Fade out. Fade in: O resto é história. Fade out.

WonderBra – É de perder a cabeça.

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6 Comentários on "A vida em 30″"

  • Paulo diz

    Ah… O que não é um fantasma na vida de um publicitário… Uma promessa de Cannes, talvez? Acho que esse merercia um Leão!

  • Rafael diz

    Pois é, um filme é um filme; e uma crônica é uma crônica. O cara manda bem em qualquer um dos dois, hehehe. Show.

  • Freak!!!! Deixa de ser workaholic! Para de pensar em propaganda. Pelo menos nas suas horas de folga!

  • Anninha diz

    Uma vez publicitário, sempre publicitário. Não existe ex-publicitário. Não tem como fugir. Até porque não tem porque fugir, é tão bom! *rs*

    Venha para o mundo da propaganda! *rs*

    Mandou muito bem, Paulo. Ficou show!!!

  • paulo diz

    Galera, valeu pelos comentários. Por favor, ignorem a frase final ” WonderBra – É de perder a cabeça” que é, na verdade, o final de outra história (ou anúncio?) e não sei como foi parar aí.

    A intenção não era criar um fantasma. Eu queria, na verdade, era mostrar como a propaganda e os mass media conseguem banalizar fatos importantes ou históricos em 30 segundos sob a lógica do comércio. Segundo esta lógica, tudo, por mais belo, grandioso, tenebroso ou sublime, pode virar comércio. Nada escapa, e assim a vida é encapsulada de maneira superficial em 30 segundos. Eu imaginei que se fizesse crônicas em formato de anúncios com histórias absurdas, que jamais pudessem ser aprovadas por cliente algum, eu conseguiria atingir um status de crítica, até pelo deslocamento do formato. Errei feio. Morreu a crítica, ficou o fantasma.

  • Anninha diz

    Como um WonderBra pode afetar a visão dos fatos e das mensagens! WonderBra é de perder a cabeça e o sentido! *rs*

    Não errou feio, não, Paulo. O ponto-de-vista é que foi alterado. A crítica permanece lá, só está mais sutil.

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