Fim de Século

Nossas vidas estão em nossas mãos e por isso cerramos os punhos. Mas o tempo, ele escorre por entre nossos dedos e tentamos impedi-lo por não saber para onde ele vai. Mas pouco importa nossa vontade, ele se vai assim mesmo. E jamais saberemos onde é que foi parar aquele naco de tempo que certamente nos fará falta quando não tivermos tempo de sobra para deixá-lo escorrer vida a fora. Não tenho feito muita coisa, me falta tempo. E nem mesmo posso saber para onde ele foi. São coisas assim que me deixam puto. Tem feito alguma coisa? Não. Meu tempo já passou.

Nossas vidas são tão fáceis que afouxamos nossos punhos. Sem problemas, sem preocupações. De tal maneira fácil que podemos nos dar ao luxo de chorar por um amor. Tão fácil, mas tão fácil, que não percebemos quando ela escorre por entre nossos dedos. Tão fácil, que não nos preocupamos para onde ela está indo. E ela vai. Não sabemos para onde, mas vamos juntos para não sabemos onde. E vai e se vai. E vamos. Fácil, fácil.

Mais um chope e a vida vai. Mais uma noite de sono não correspondido e a vida vai. A conversa parece não ir a lugar nenhum, mas se fosse, certamente não saberíamos para onde iria. Ora, não sabemos nem pra onde vamos. Vou pra casa. Mas a vida, ela vai para não sei onde.

E aí está você também. No ano passado fui em seu aniversário, você completava vinte e dois anos. Então te encontro agora, e que estranho!, você tem setenta e cinco. Um lapso. Como se fosse uma fruta verde num dia e no outro estivesse podre no chão. Apenas um lapso. Um grande salto. Como se um trem estivesse chegando e por um segundo eu desviasse o olhar. Pronto. Lá está ele partindo para seu próximo destino. Como um dia que nasce ontem e morre amanhã sem nunca ter sido hoje. Tão somente um lapso. Um tempo que passou. Uma menina que sem se quer perder a virgindade é mãe de quatro filhos.

Quanto tempo já passou? Não sei dizer com exatidão. Mas com certeza foi bem mais do que meus vinte e cinco anos, perdi muito mais tempo do que já vivi, talvez até mais do que viverei. Mas isso é coisa que não se sabe. Tem feito alguma coisa? Eu já não sei. Mas se me perguntasse se tenho perdido alguma coisa, saberia que sim. Perco muito o tempo todo. Além de dinheiro, já perdi meu tempo, minha memória, meus amigos e todos os jogos que joguei. Mas eu vou indo. Não sei exatamente pra onde, e ninguém sabe. Na verdade, a vida é que vai. Ela e o tempo. Nós, só vamos atrás.

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