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Mateus e sua Mãe - (03-04-2002) - por Vinicius Barreto Era assim desde sempre. Quando dava dezembro e o final do ano ia chegando, Mateus sabia que sua mãe iria comentar da ida à praia. Não tinha muita noção de quando aquilo começara. Só sabia que aquela era época de ir ver o mar. “Mateus, o que você acha de ir com a mamãe pra praia? Passar um tempo por lá, tomar banho de bar, comer caranguejo? Lembra da última vez quando você queria matar o caranguejo e colocar na panela pra moça cozinhar?” Mateus se lembrava bem e dava risadas tÃmidas por dentro. Parecia ontem; a mãe toda aflita com o filho a tentar agarrar aquele bicho cheio de patas. Morria de medo com o que poderia acontecer ao menino. Coitado, frágil que era podia levar um susto sem tamanho. AÃ, haja consolo, haja colo pro filho doente para o qual o mundo era por demais complexo. Mesmo uma ida ao banheiro. Mesmo um almoço na casa dos primos. O pai recriminara a gestação já em idade avançada. “Mulher na sua idade já era para estar com neto de colo. Onde já se viu? Se o menino nascer aà com a cara torta não venha reclamar de Deus e do mundo. Falta de aviso não foi…” Palavras sem intenção. Quando Mateus nasceu, problemático, o pai foi chorar com a filha a má sorte do neto, ali no quarto branco do hospital. Sofrera bastante, sim. Mas queria esquecer tudo o que passara. Criara o filho com um amor suado, tenso, que lhe sugava a alma e a obrigava a uma vida de privações e sacrifÃcios, de choros pelos cantos. Agora era o mar que interessava. Fim de ano, Natal, Ano Novo. Iam sentar nas cadeiras brancas do hotel o qual freqüentavam havia anos. O garçom vinha e trazia o suco de que tanto gostava Mateus. Pra mãe um copo d’água, que invariavelmente era hora de algum remédio, algum comprimido pra algum mal. Tomando suco de manga, Mateus via o mar vir e ir. Lá no fundo, pra onde nunca ousara ir, via meninas loiras brincando com as ondas. Tão belas eram elas, as meninas e as ondas. Não sabia bem o porquê, mas sua mãe sempre avisava. “Não quero você atrás dessas garotas da praia, Mateus. Elas vêem e vão. Um dia estão aà e depois somem. Tome cuidado”. Temeroso de uma reação irada da mãe - que com certeza desaprovaria - nunca ousara ir até as meninas e nem ir até aquela fundura onde o mar não era mais mar, era algo desconhecido. “Vamos Mateus, está na hora de tomar banho. Ligeiro, que hoje é o reveillon; quero você bem bonito pra chegada do ano”. Iam os dois da praia para o quarto de hotel. A mãe na frente, Mateus atrás. Ela toda imponente, com a cara na maquiagem; muito batom e muita sombra pra esconder os anos passados. Caminhava sem perder a pose. Tinha orgulho da cor de seu batom, dos verões que já vivera e de seu filho acima de tudo. Mateus ia atrás, passo miúdo, tÃmido. Seguia a mãe. À noite, quando os fogos começavam a subir noite adentro pra colorir a madrugada do primeiro dia do ano e todos tonalizavam as casas com suas roupas brancas, mãe e filho iam à praia. Lá longe as meninas do dia anterior brincavam. Agora vestiam trajes brancos, mas também estavam mais distantes do que nunca. Grupos dispersos pulavam as ondas. Os mais receosos ficavam na areia a contemplar, temerosos de estragarem roupas tão alvas. Era enfim um novo ano. As luzes dos fogos davam conta disso. “Feliz ano novo, mamãe”. “Feliz ano novo, meu filho”. Ficavam a contemplar as ondas ora verdes, ora azuis, ora vermelhas. Entre ambos pairava uma certeza irremediável, um laço que os unia com tal segurança, a mesma que fazia as ondas irem e voltarem e fazia com que os fogos azuis explodissem azuis na noite de ano novo. |
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