Mil Mundos

Menino crescido, criado em capital, acostumado às atenções e verdades urbanas, quando vai ao mato e vê a vida se espanta com as cores que se revelam ao seu redor. E foi assim que aconteceu. Agorinha. Ontem.

Despretensiosamente, assim como quando somos tomados por súbitas e insólitas visões, me deixei envolver por pensamentos vagos, debruçado em uma janela, olhando o tempo vencer aquela fria e embaçada manhã de domingo. À minha frente uma paisagem pálida. Limítrofe entre os estados de Bahia e Minas.

Me levara até ali o trabalho. Havia uma eleição naquele dia e lá estava eu. Trabalhando. Por acaso, tratava-se de uma escola, ou, mais precisamente, de uma sala de aula.

Crianças estudavam ali. Crianças pequenas como meus filhos. Pude reconhecer seus estudos naquele lugar. Vi os mesmos desenhos disformes. As mesmas referencias às “palavras mágicas” como “licença”, “obrigado”. Em tempos de Copa do Mundo, vi – certamente desenhadas e pintadas por crianças um pouco maiores – as bandeiras de todos os trinta e dois paises participantes do torneio. Vi que nas carteiras lascadas se sentavam meninas e meninos de barriga grande, descalços. Sem muito esforço os visualizei inquietos, ativos. Um caderno surrado sobre cada uma das mesas limpas e apodrecidas, um lápis preto, alguns tocos coloridos. Seus olhares – segundo o meu pensamento -, desafiavam as regras acadêmicas e estavam distantes do minúsculo quadro em que a professora escrevia a data e as primeiras letras do alfabeto. Seus olhares – agora meus – estavam no horizonte pacato daquela janela em que eu me debruçava para ver o mundo.

Porém, o mundo observado dali não era maior que algumas cercas, muito gado, um riacho e pastos oblíquos. Pequeno demais para conter minhas demandas. E embora muito me agradasse contempla-lo, tinha consciência de que jamais o aceitaria para mim. Mas, e aquelas crianças? – Me perguntava. Que relação possuíam com aquele universo miúdo? O que sabiam sobre a vida atrás dos altos e verdes montes que as aprisionavam em tão pouco? Seus sonhos, de que se compunham? Cercas, gado, riacho e pasto?

Quieto e alheio ao vazio que dividia comigo a silenciosa sala, continuei olhando através da janela. Lembro-me bem de estar um pouco febril naquela manhã. Talvez por isso tenha me concedido tantos instantes. Indiferentes aos meus olhos intrusos ou ao meu torpor, três ou quatro crianças se inseriram no cenário bucólico para o qual olhava. Elas tiravam suas roupas para saltar de uma pequena ponte – quase uma pinguela – e banhar-se no riacho de água lodosa. Seus rostos estavam felizes e seus corpos nus pareciam desfrutar de um paraíso.

Era estranho para mim aceitar tanta alegria. Parecia impossível que alguém se contentasse com um simples banho em meio àquela pequenez de mundo. Mas o que eu via era real. E não apenas as crianças que brincavam sem preocupações pareciam realizadas. As pessoas que cruzavam a tal ponte também possuíam a mesma aparência suave da alegria. Caminhavam tranqüilas, displicentes. Em nada as incomodava as dimensões do seu universo.

São muitos os mundos, eu vi. Cada pessoa em sua janela cria o seu, e é difícil escapar ao desejo de impor às outras a supremacia do ambiente que idealizamos. Durante todo o tempo em que me permiti contemplar as brincadeiras daquelas crianças, muitos mundos bailaram em meu pensamento. Mentalmente, tentei inseri-las em cada um deles. Pô-las em contato com outras crianças, outras diversões. Impus a elas necessidades tão diferentes das que possuíam que era como se as transformasse em outras pessoas. Tolice.

Antes de fechar a janela e voltar ao trabalho, respirei um punhado mais daquele ar maravilhoso e puro, e olhei com carinho para aquelas montanhas. Para minha surpresa, elas pareceram especialmente belas. Não passaram a ser – é verdade – melhores ou piores, mas, definitivamente, diferentes. Apenas diferentes.

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