O Ministério da Árvore

Praticamente em toda cidade do interior que eu conheço, existe o ponto dos fazendeiros. Devido sua “importância”, tal ponto nunca pode ser em qualquer lugar, pois é nele onde são realizadas grandes transações comerciais, onde são enjeitadas outro tanto de grandes ofertas, onde são recebidas e passadas informações estratégicas, onde são diagnosticados e solucionados todos os problemas econômicos e sociais do país e, onde são atualizadas (e criadas) muitas das as fofocas da “Ardeia”. Assim sendo, é de extrema importância obedecer algumas especificações técnicas indispensáveis quanto a sua localização. Senão vejamos:

– Deve contar com um ponto de apoio bem próximo, ou seja, um bar e café. (pra comê um sargado, tomá uma gelada, ou memo um simplório cafezinho).
– Deve ser equipado com um telefone publico, de preferência do tipo cabine fechada. (mode privacidade é bão e nois gosta)
– Deve contar com vários bancos de praça dispostos de maneira que nunca estejam de costas uns para os outros. (pra dificultá que nois fale “mar” uns dos outro)
– O vendedor de picolé, de garapa e coisas do gênero, a “poltrona alta” de engraxar sapatos, e o engraxate devem ser sempre os mesmos. (causo que ninguém véve sem um fiadinho).
– E finalmente o mais importante: sombra! O ponto tem que contar com pelo menos uma arvore grande e frondosa. (É, nois tem chapéu mais nois num é capeta).
– OBS: Cá entre nós, tal ponto está mais pra clube do bolinha do que para ponto de prosa de qualquer natureza… (nunca vi, não tenho visto, e acredito que não vou ver tão cedo, alguma mulher transacionando pelo pedaço – salvo nossa sempre gloriosa vendedora de bilhetes “Regina Roque Lane”).

O ponto aqui de Passos tem um apelido pomposo: Ministério da Arvore. Não sei porque, mas tendo como referencial a igreja matriz, ele sempre foi localizado do lado direito da praça.

Antigamente, o Ministério da Arvore era localizado na esquina de cima da praça. Na década de 50 seu “ponto de apoio” era o famoso bar Seleta, do Homero Parenti, palco de muitos causos e bebedeiras homéricas, e onde foram batizados vários touros e novilhas Gir à base de champagne francês. Depois que fechou, o café passou para um cômodo abaixo. Da década de 60 até inicio dos anos 80, o café foi capitaneado primeiro pelo querido sô Joanito. Logo depois virou o bar do “Caôio”, onde dizem que certa vez um fazendeirão, todo metido, gritou ainda do lado de fora do bar: “Oh Caôio, chuta um pastel aí pra mim!”, sem nada responder, Caôio simplesmente pegou o pastel, jogou-o pro alto e mandou nele uma bicuda que o quitute voou até espatifar-se no meio da rua… Depois do Caôio foi a vez do Vicente “Triste”, dizem que nesta época, se bebia lá o melhor cafezinho do Brasil, e algum tempo depois, já em outro prédio ainda mais abaixo, a lanchonete Árabe, do Feres Guerra, fez as honras do ponto.

Desde a década de 80 até hoje o Ministério passou para a esquina de baixo da praça, e o ponto de apoio tem sido desde então, o bar e café Globo, cujo proprietário, o João do Globo, vulgo João Bonitinho, já é personagem folclórico e histórico dessa terra do Bom Jesus dos Passos.

Os freqüentadores do Ministério da Arvore, podem ser classificados entre aqueles considerados “esporádicos” e aqueles que podemos chamar de “assíduos”, como o prestativo “Zé do Chapéu”, o engraçado “Dito Fala Grossa”, o supernegociante “Cezar Milita”, o “come quieto” Cirilo, os falantes Alex Borsari e Calos Magno, o econômico Gleison Nogueira, o cismado Zé Turquinho, além de muitos outros.

Entre os freqüentadores assíduos tinha o chamado Nenê Boiadeiro, que quando morava em Passos era proprietário de uma bela fazenda, bem montada, às margens de rodovia asfaltada, terras de cultura, toda cercada e divida em pastos muito bem cuidados. O danado do Nenê Boiadeiro era uma festa, bom de prosa que só ele… Quando começava a falar, ainda mais se fosse de sua fazenda, o melhor era ficar quieto e escutar. Certa vez, numa roda de muitos companheiros, Nenê falava a respeito da roça de milho que havia plantado:

– Êh moçada! Cêis pode vê igual, mas mió que minha roça eu duvido… Aqui, eu nunca vi tanta espiga de mio assim… E o tamanho? Tem espiga lá pra mais de meio metro, uai!

Um desavisado que estava ouvindo aquilo, não sei porque “cargas d’água” resolve apurar melhor aquela historia…

– Uai Nenê! Eu passei por lá outro dia e não achei essa sua roça lá essas coisas não! Pra falar a verdade achei ela até meio baixota!
– Áh caboco! Ocê que num prestô atenção dereito! Ela tá baixota exatamente pro causa do tamanho das espiga… O peso é tão grande que lá vai me enterrando os pé de mio, sô!

Algum tempo depois Nenê vendeu essa sua fazenda, e capitalizado foi comprar boi e alugar pastos no estado do Pará… Nenê sumiu da praça por uns bons tempos, recentemente, numa manhã, aparece o Nenê com o mesmo prosão de sempre, era novembro, época de vacinação contra febre aftosa…

– Êh moçada! Aquilo lá que é um mundo aberto, tem fazenda lá que o fazendeiro tem que fechá a vacada no curral toda tarde, senão o gado engorda tanto que dificurta ele até de prenhá!

Ainda não contente, continuou…

– Mais que trabaião que me deu essa tar vacinação… É munto gado esparramado pra toda banda… Esse negóço da vacina tê que ficá no gelo me deu o que fazer! Era caixa de isopor pra lá, caixa pra cá, eu já tava em tempo de endoidá, desanimando… Quando eu vi um caminhãozinho da Kibom descarregando numa sorveteria, pronto! Na horica me deu o estalo! Aluguei o caminhão e enchi ele até a tampa de vacina. Ah! Foi a maior moleza daí pra frente!

E assim são resolvidos todos os problemas, lá no Ministério da Árvore…

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