Pequena Crônica de Resposta

(Resposta à crônica A Maior de Todas as Polêmicas, do Ricardo)

Vim em defesa das casquinhas de sorvete, sejam elas refinadas como a de um Cornetto, sejam elas capengas como aquelas dos sorvetes de xarope de morango (ou outra fruta…).

Insinuar que a casquinha de sorvete é um mero acessório recipiente para essa deliciosa invenção da culinária chinesa ou, pior, difamar, sem meias palavras, a sua procedencia, reduzindo-a à condição de um mero isopor comestível, me faz sentir medo.

Durante longos três mil anos fomos obrigados a degustar um sorvetinho nos mais inadequados recipientes. Por exemplo, os copos ou tigelas especialmente desenvolvidas para isso. A idéia de se utilizar uma forma sólida para recepcionar o sorvete a principio funciona bem. É prático, não pinga e a parte que derrete fica dentro do vasilhame. Ora, pois, qual é o problema então ?

O problema de utilizar esse tipo de recipiente, é que a segurança que ele nos dá, de que não vamos melecar as mãos se o sorvete derreter, faz com que demoremos mais tempo para acabar de comer. Isso naturamelnte faz com que grande parte do sorvete derreta e forme aquele caldinho no fundo do copo. Em termos gastronômicos (do bom gourmet) isso é um crime ! Sorvete deve ser degustado gelado ou não é mais sorvete… O máximo que se permite a um sorvete derreter é o limite entre a tensão da superfície de seu estado líquido e a força da gravidade, ou seja, ele pode derreter, mas não pode escorrer. Há os que defendem as qualidades da massa meio líquida que se forma no fundo do copo, mas essa é uma outra discussão. Sorvete deve ser comido gelado, assim como chocolate quente deve ser sorvido quente.

Outro problema: como tomar um sorvete caminhando à beira da praia e ao mesmo tempo ficar de mãos dadas com a sua amada ? Ou pior, acabar o sorvete e querer dar um doce beijo na boca da sua menina, segurando um copo vazio e melequento em uma das mãos.

Para resolver esse problema, desenvolveram no início do século passado o mais novo recipiente para o sorvete: o palito. O palito tinha um design arrojado para a época. A superfície totalmente reta para segurar o sorvete ia contra todos os padrões estabelecidos na sociedade até então, afinal, por três mil anos, utilizaram-se as formas arredondadas para tal função.

Resolveu-se então o problema da caminhada na praia. Com o sorvete em um palito, você pode caminhar tranquilamente pela praia, de mãos dadas com sua amada, tomando seu sorvetinho. Mas o que fazer com o palito na hora de beijar sua menina na boca? Problema não resolvido… pelo menos para os ecologicamente corretos. Outro problema do palito: a ultima mordida. Ou você enfia o palito pescoço adentro ou corre o risco de ver a melhor parte do seu sorvete ganhar uma cobertura crocante de areia. Não sem antes atingir (e melecar) sua barriga ou os seus pés (pior se você estiver de chinelo). Isso sem falar na modificação estrutural pela qual passa o sorvete para permanecer fixo no palito ate o penúltimo bocado, causando o desgosto daqueles que preferem a massa à moda antiga.

Eis que surge então, também no início do século passado, uma invenção que viria pôr fim a todos esses inconvenientes: a casquinha de sorvete. Feita originalmente de zalabia, um waffle à moda persa, essa deliciosa combinação entre uma massa doce cozida e uma massa doce gelada veio revolucionar definitivamente o modo como se transporta e degusta um sorvete. A busca pelo sabor perfeito persegue o ser humano desde que a primeira chama foi acendida artificialmente. A combinação de sabores esta presente em toda a historia gastronômica da humanidade e não poderia passar em branco pelo sorvete. Combine-o com frutas e terá um sabor. Combine-o com um bolo e terá um outro sabor. Experimente-o em uma casquinha e sentirá um mundo de sabores a ser desbravado.

Para aqueles que caminham com sua amada pela praia, sobram-lhe mãos para abraçar e beijar sua menina. Sem falar quando ela é do tipo que adora uma casquinha de sorvete. Não tem momento mais feliz no mundo do sorvete do que ver o sorriso da sua amada quando você oferece para ela toda sua casquinha. Ou quer momento mais romântico do que o beijo apaixonado que voce ganha quando deixa para ela a deliciosa pontinha com chocolate? Invenção das mais felizes para resolver o problema da falta de sorvete na ponta estreita do waffle e que de quebra pode garantir alguns momentos de amor para o casal.

Um desafio para os maiores apreciadores de dessa iguaria é encontrar a casquinha perfeita: aquela que tem o sorvete na medida e consistência certa. Aquela onde o sorvete permanece dentro dos limites ideais de derretimento, proporcionando a completa e prazerosa degustação da massa gelada e que permite saborear o waffle na forma como foi concebido. Essa é a casquinha ideal, procurada por todos aqueles que apreciam um bom sorvete e curtem andar com sua amada pela praia com as mãos livres pro que der e vier…

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3 Comentários on "Pequena Crônica de Resposta"

  • Finalmente um entusiasta da casquinha do sorvete com base histórica (ou diria imaginação?) suficiente para calar a boca do bobo, chato, come cocô e feio do Ricardo. Quem não gosta de casquinha de sorvete não merece viver!

  • Ricardo diz

    Leo, vc é feio! EU NAO GOSTO DE CASQUINHA DE SORVETE E PRONTO! Além disso, nem sei mais como é caminhar na praia com alguém… prefiro ocupar minhas duas mãos com o sorvete, pra não me sentir deprimido! EU ODEIO CASQUINHA! ehehehe

    Muito boa a crônica Marcão! Não tenho o que falar …

  • Rafael diz

    ” ….. desde que a primeira chama foi acendida artificialmente.” Foi muito boa.

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