Quatro Rodas

Juro que não entendo o prazer que algumas pessoas sentem em dirigir. Acredito que qualquer possível diversão no ato caiu por terra no momento em que surgiu o primeiro engarrafamento, e o carro deixou de ser um meio de locomoção (para os práticos) e emoção (para os amantes da velocidade). Acabou a graça, sobrou o stress. Mas como tudo na vida tem um lado bom, antropologicamente o trânsito pode ser uma experiência muito enriquecedora.

Para o observador atento, o trânsito conta muito sobre as pessoas. Em pouco tempo, pode-se tirar vários ensinamentos interessantes, e arrisco dizer que a natureza humana revela-se a 70 km/h (90 na marginal e 10 nos dias difíceis). Encontramos todo tipo de gente no volante. Nada mais fácil, por exemplo, que identificar o pão-duro. É aquele que, na hora de comprar seu veículo, recusou-se a pagar por um opcional imprescindível para o bom convívio motorizado: a seta. Em compensação, alguns pagaram tão caro que querem resgatar o investimento pelo uso. Nunca desligam o pisca-pisca. Adivinhar pra onde vão esses sujeitos fica a cargo de cada um de nós.

Porém, se existe uma pessoa capaz de tal adivinhação, é o guru. O guru é o motorista experiente, alguém já rodando há tanto tempo que desenvolveu um dom que o separa dos reles mortais: a premonição olha-o-quê-que-esse-cara-vai-fazer. Você pode não entender porque o guru resolveu brecar repentinamente, mas tudo se esclarece quando uma besta selvagem (também conhecida como caminhão) surge sabe-se lá de onde para ocupar o lugar que você podia jurar que era dele (do guru, não da besta).

Tem o motorista zen. O zen tem uma missão no mundo. Saido de algum templo budista, depois de ter dominado completamente inúmeras técnicas de auto-controle, este exótico ser veio para compartilhar conosco a paciência divina (à força). É por isso que eles geralmente andam em grupos de três carros lado a lado trafegando a passo de tartaruga, segurando o fluxo. São os motoristas mais odiados pelo fominha. O fominha não suporta esperar, e acha que o acostamento é uma pista que niguém reparou que estava vazia. Ele foi buscar no Playcenter um hábito terrível e trouxe para o trânsito: furar fila.

Mas é nos engarrafamentos que a máscara cai, quando há de se fazer valer o que gastamos no IPVA. Aí, até o mais ilustre dos homens vira um selvagem. Lutamos como animais defendendo nosso chão – coisa de macho – e não medimos gestos ou palavras. Nesse ponto, devemos elogiar as mulheres, que são, sem dúvida, muito mais civilizadas que nós, pois não buscam a conquista de espaço algum no trânsito. A falta de apego ao território é facilmente perceptível pelo modo como elas passeiam por todas as pistas sem escolher nenhuma.

Eu, enquanto fico ali parado nos congestionamentos, com a certeza de que os radares de velocidade estão rindo da minha cara, continuo sendo mais uma figura do mundo das quatro rodas. No trânsito, eu sou o reclamão.

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6 Comentários on "Quatro Rodas"

  • Felipe diz

    Parabéns pelo texto! Realmente muito divertido!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Pedro, muito bom o texto. Se eu fosse mentiroso diria que eu sou zen, mas no entanto, estou mais para fominha.

  • Rafael diz

    Fiquei bastante impressionado com a fluência que tem o seu texto. Muito bem redigido e encadeado. Ficou ótimo, espero que aproveite essa sua capacidade. Parabéns.

  • Jacaré diz

    O humor é o seu forte. E a fluência, como disse o Rafa, também. Pra falar a verdade, eu fiquei com vontade de ler mais uns três ou quatro parágrafos.

    Parabéns.

  • Renata diz

    Pedrinho, Pedrinho, Pedrinho…

    Você mandou bem mas foi um tanto machistinha (o que é bem pior do que ser só machista). Precisava andar mais comigo dirigindo…

    EU ADORO DIRIGIR!!!!

  • Pedro diz

    Obrigado a todos pelos comentários, e…

    Rê, desculpa o machismo. É só uma questão cientificamente compravada de percepção espacial. Ok?

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