Trem das Onze

“Não posso ficar nem mais um minuto com você…”, Adoniran Barbosa que me perdoe, mas alguém já parou para escutar a letra dessa música? Aqui eu estou usando o verbo escutar na sua acepção mais pura, de acordo com o Novo Dicionário Aurélio (que já não é tão novo assim, convenhamos, edição de 1986!), “tornar-se ou estar atento para ouvir; (…) prestar atenção para ouvir alguma coisa”.

Meu pai costumava cantarolar essa música quando eu tinha lá meus 6 anos (pelo menos foi nessa idade que me dei conta disso). Como todos que certamente já passaram por essa fase devem bem saber, havia uma irrefreável força que me compelia a repetir tudo que ouvia. Assim, não se passou muito tempo até que me ouvissem, pirralhinha, declamando perfeitamente a bendita melodia. Mal sabia eu, na época, que Jaçanã era um bairro, um pouco longe de onde eu morava, é verdade, mas ainda assim localizado na grande São Paulo, e muito menos estava eu familiarizada com as dificuldades do transporte público na cidade.

Longe de mim querer tirar o mérito daquela que foi eleita a música que melhor representa a cidade de São Paulo, imortalizada pelos não menos louváveis Demônios da Garoa, mas hoje, parando para analisar o conteúdo de sua letra, percebo o quão machista era (e ainda é?!?!) a sociedade brasileira daquela época. Mais do que nunca dou razão àquelas que rearticularam o movimento feminista no Brasil em meados da década de 70. Onde já se viu, em 1964 (suposto ano em que a música foi composta por Adoniran Barbosa e divulgada pelo grupo Demônios da Garoa), uma música dessas estourar nas rádios brasileiras (dizem ainda que foi um dos poucos sambas compostos por um paulista que fez tanto sucesso nos carnavais do Rio de Janeiro!!).

Passemos então a dissecá-la. Comecemos pelo começo, como diria um amigo meu…

“Não posso ficar nem mais um minuto com você”…tsc, tsc, tsc…tudo errado… na realidade uma mulher apaixonada esperaria ouvir de um cavalheiro, apaixonado, um “Não posso ficar nem mais um minuto SEM você”.

“Sinto muito, amor”, agora sim, parece que o compositor começou a se redimir, utilizando dois vocábulos que geralmente as pessoas do sexo masculino têm ojeriza: “sinto muito” e “amor”.

“Moro em Jaçanã, se eu perder esse trem…”, daí para frente desandou de vez. Adoniran, Adoniran, até parece que nunca ouviu dizer que a mais nobre qualidade do homem é a sinceridade? A moça era banguela? Chata? Um grude só? Então por que não abrir o jogo, sem mais delongas, “olha querida, é o seguinte, cansei!”, e dar uma dispensada educada? Agora, ficar ludibriando a pobre coitada, dizendo, ou melhor, inventando que o trem sai às onze? Isso mesmo, L U D I B R I A N D O, para usar o vocabulário em voga na década de 60. Pois é, Sr. Adoniran, eu andei averiguando e parece que o trem que deixava a estação de Tamanduateí em direção à Jaçanã partia às 22:40. Então qual a conclusão que podemos chegar? Ora, que às 23:00 o último trem para a sua casa já havia partido e que, portanto:

hipótese número um: o moçoilo estava querendo se livrar da mocinha e contou uma “mentira branca” (recurso muito utilizado, inclusive na atualidade, pelos representantes da classe masculina que não são machos o suficiente para dizer que não gostam mais da menina, mas também não querem deixar transparecer sua cafajestagem);

hipótese número dois: o cara era um mentiroso compulsivo, na verdade não precisava pegar o trem, muito menos o das onze (que já vimos que não existia), a sua casa não ficava em Jaçanã e, a bem da verdade, nem morava em casa, era um apartamento! Pior, talvez até já fosse casado…com cinco filhos!!!!!!

hipótese número três: o sem vergonha provavelmente já havia se aproveitado da moçoila virginal (que já não era mais tão virginal assim) e, sem a machesa que lhe deveria ser peculiar, não teve coragem de dar o fora … (aí voltamos novamente à primeira hipótese); e

quarta e última hipótese: o rapagão na verdade era uma lady que, sem coragem de contar a verdade nua e crua à sua colega e romper com as barreiras sociais da época (se fosse nos dias de hoje com certeza você o encontraria desfilando na Avenida Paulista no 28 de junho), resolveu delicadamente sair pela tangente para não ter que passar a noite com a sedutora moçoila.

Digamos que nenhuma das hipóteses acima elencadas é motivo de orgulho para o personagem. Mas não paro por aí, agora que comecei vou até o fim.

“Se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã”. Tudo bem, tudo bem, todo esse drama para não perder o tal do trem? Ora, se eu fosse um rapazote, com meus vinte e poucos anos, até torceria para perder o trem. Dessa forma mataria dois coelhos com uma cajadada só, livrando-me das garras da matriarca autoritária e arranjando uma desculpa para passar a noite com a bela amante (sim, porque a hipótese de que ela era feia e banguela não me convenceu muito não). O que mais um jovem poderia querer, ora bolas!

“E além disso, mulher”, bom, aí já começou a avacalhação…o que é isso, Adoniran, primeiro invocas a amante como “amor” e três estrofes abaixo já estás a chamá-la de “mulher”??

“Tem outras coisas”, demonstra claramente um traço marcante da personalidade masculina, mais escorregadio do que truta de água doce! Sempre dando um jeito de se esquivar…

“Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”, pronto, agora ele está metendo a mãe no meio, nem são casados e a sogra já é a causa da discussão… a mãe por sua vez, coitada, deve ser uma eterna insone…

“Sou filho único”, e ainda por cima é filho único? Ih, só mesmo Freud para explicar…quer dizer, isso pressupondo que ele esteja falando a verdade, de repente descobre-se que ele é o caçula de dez, a essa altura nada mais me espanta!

“Tenho minha casa pra olhar”, ôh filhinho, você deveria consultar mais vezes o seu advogado, usucapião, desde 1916 (data da promulgação do Código Civil Brasileiro), só depois de 20 anos em posse ininterrupta do terreno.

“Não posso ficar, não posso ficar”, de volta à lenga-lenga, o personagem, com a dupla repetição da frase inicial, demonstra inquietação…e a máscara aos poucos vai caindo…

“Sou filho único tenho minha casa pra olhar, sou filho único tenho minha casa pra olhar”, já neste caso, o mentiroso reitera a justificativa, apelando para o instinto maternal da amante, de forma a passar maior credibilidade à sua história (um forte sinal de que ele mesmo estaria inseguro quanto à versão contada).

O melhor mesmo fica para o final, “Quais, Quais, Quais, Quais, Quais, Quais…Mais carim dundum, Mais carim dundum, Mais carim dundum…”. Diga agora, olhando na minha cara, se essa não é a maior caçoada que você já ouviu na vida? Não vem me dizer que são onomatopéias, ah não, pra cima de mim não meu bem! Consigo até visualizar o malandrão em uma mesa de bar, numa roda de amigos, relatando essa história triste e caçoando da amante que, com lágrimas nos olhos, acreditando na lorota contada, despede-se do amante na estação de trem…

É, realmente, sou obrigada a admitir que já não fazem mais “histórias de amor” como antigamente…

*Nota da autora: Simpatizantes, admiradores, parentes e amigos de Adoniran Barbosa, por favor não levem a “crítica” a sério, foi apenas uma forma divertida de expor a letra da música. Particularmente, gosto muito do Trem das Onze, que o diga meu pai!

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5 Comentários on "Trem das Onze"

  • Leopoldo diz

    Tsc, tsc… Mais um clássico caso de DUAM (Detector Universal de Ambigüidade Masculina). O Volponi explica melhor isso na crônica “Genes”.

    De qualquer forma sua análise está genial!

  • Rafael diz

    Eu tenho certeza das boas intenções do moço porque no Jaçanã só tem gente muito da legal, falou? hehehehe

    Belo Texto. Parabéns de verdade!

  • Juliana Furtado diz

    Nossa, muito bom seu texto!!! Adorei, e realmente a letra é para se desconfiar…

    Mas por outro lado, quinta passada fui ver os Demônios da Garoa no Bar Brahma e é simplesmente o máximo! Recomendo. Adivinha qual é a música que fecha o show?

    Beijos

  • Juliana K. diz

    Juliana,

    Obrigada pelo elogio! Sim, eu sou assídua frequentadora do Bar Brahma, mas infelizmente ainda não consegui ver e ouvir os Demônios da Garoa lá…até tinha ouvido dizer que eles pararam de tocar. Bom saber que estão de volta!

    bjos

  • Lucio diz

    do jeito que voce é inventiva, o que não falta na musica brasileira material pra fazer “interpretações dramáticas” desse tipo! :)

    Só uma sugestao, o uso da preposição é muito importante, a frase “agora sim, parece que o compositor começou a se redimir, utilizando dois vocábulos que geralmente as pessoas do sexo masculino têm ojeriza”

    ficaria correta mesmo “agora sim, parece que o compositor começou a se redimir, utilizando dois vocábulos aos quais geralmente as pessoas do sexo masculino têm ojeriza”

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