Uma corrida desesperada

E ele saiu de casa determinado a nunca mais voltar. Cortou distancia, falou com estranhos, viu o mundo sempre querendo ir mais além. Foi nessa corrida desmiolada que ele viu alguém. Viu e lembrou-se de que também havia deixado alguém, que alguém em algum lugar ansiava por sua chegada e esta tardaria enquanto se fizesse necessário.

E assim ele se deixava levar, com o passar do tempo, com o correr dos ventos, ia se deixando cada vez mais longe, cada vez mais distante de um destino impossível de alcançar.

Dias foram passando, fases se extinguindo, luas mudando. As estrelas já não olhavam para ele da mesma maneira, não sorriam da mesma forma, não lembravam com o mesmo carinho, não abraçavam com a mesma emoção. E ele apenas lá, deixando-se esperar, fazendo-se estar, ocupando um lugar que não lhe merecia, atendendo a um sonho que não conhecia, respirando um ar que não lhe penetrava. Os dias passavam, e cada dia novo era igual, e cada sonho novo era mais real, real como algo que não se altera, que é e pra sempre ser o mesmo.

Queria chegar ao fim, sim, como queria, e queria mesmo, com todas as forças que vitoriosamente ainda lhe restavam…. Dias frios, quentes, chuva, nada mais importava, mais nada lhe fazia sentir novamente as emoções daquele que sorrindo conquista o mundo e caminhando alcança histórias, apenas a limitada existência, a duvida de ser, a incerteza de esquecer, a impureza de pertencer. A cada dia era menos ele, até que num desses dias, como as águas carregam as folhas que não querem mais respirar, ele se foi, levado pelas mão que não podia sentir, pelos olhos que não podia enxergar, pela velocidade que não conseguia encontrar, mas principalmente pela força, pela insistência de um dia vir a ser.

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1 Comentário on "Uma corrida desesperada"

  • Rafael diz

    Muito intenso e introspectivo. Poesia em prosa, meus parabéns. Não vou dizer que não fiquei um pouco incomodado durante a leitura, algo no ritmo do texto não deixa a gente à vontade ….. ficou bom assim.

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