A história de Israel

Israel era um menino franzino e meio esquisito. Pelo menos era o que toda molecada do bairro achava. A bem da verdade, Israel era diferente de seus colegas e não fazia muita questão de se enturmar. Estudioso, achava que ficar por aí com “esse bando de ignorantes” era perda de tempo. Não é preciso mencionar que Israel era o alvo predileto não só do bairro como da escola. Todos caçoavam do seu jeito de andar, de suas roupas, enfim, dele. Os mais exaltados adoravam torturar Israel. Era lugar comum ver Israel com a cara metida na privada em meio a seguidas descargas, de ponta cabeça no lixo da classe ou sendo utilizado como apagador de lousa, tudo regado a gargalhadas dos algozes e antipatizantes e à indiferença de quem até achava aquilo uma injustiça mas não ia se sujar com a galera por causa de um chato como Israel. A verdade é que Israel não era lá muito bom em fazer amigos e não tinha ninguém em quem se apoiar. Sua vida social se resumia a surras constantes, grandalhões tomando seu dinheiro do lanche (que não era muito), meninas que não lhe davam a menor bola, sempre ter que catar no gol nas peladas, enfim, um inferno.

A sorte de seus pais também não era das melhores. Os negócios iam mal e estavam quase perdendo a casa. Pais zelosos, fizeram tudo o que podiam para acabar com as injustiças que Israel sofria. Falaram com diretores, professores, pais, mas ninguém dava ouvidos. Eram considerados esquisitos, um casal de fracassados ressentidos que queriam achar um culpado para o desastre que era o desajustado do Israel. Cansados, falidos e sentindo o peso da injustiça sobre seus ombros, eles decidiram mudar de país. Mas se Israel já era considerado esquisito na terra onde nasceu, imagine em outro país, com outra língua e costumes diferentes. Mudar de país só piorou as coisas. Agora Israel estava ainda mais isolado e era ainda mais discriminado. Desesperados, seus pais adotaram a mudança de país como solução. Mas em nenhum lugar Israel se enquadrava. E a saudade da terra natal (a saudade tem essa qualidade de encobrir o lado negativo das coisas) deixava a situação ainda mais insuportável.

Mas foi na Alemanha onde Israel sofreu mais. Lá, os garotos eram ainda mais cruéis. Um dia, trancaram Israel num forno industrial da escola e ligaram o gás. Não fosse o cozinheiro russo chegar a tempo, Israel estaria morto. Depois do incidente, a família decidiu atravessar o Atlântico… Ah, América! Terra das oportunidades! A família de Israel prosperou nos EUA. Porém, a saúde de Israel ainda estava debilitada devido ao incidente na Alemanha. Com dinheiro na mão, os pais contrataram os melhores médicos de Nova York para cuidar de Israel. Ao ouvirem a triste saga de Israel, os médicos americanos, que como bons americanos detestam injustiça, ficaram emocionados e juraram que a partir daquele dia Israel jamais seria molestado novamente. Fizeram um tratamento à base de anabolizantes e Israel ficou grande e forte. Felizes, os pais de Israel decidiram que era hora de voltar à terra natal. Voltaram em grande estilo, compraram a melhor casa do bairro. Israel voltou à sua antiga escola e ninguém mais tinha coragem de se meter com ele. Parecia que a justiça finalmente iria prevalecer. Porém, Israel ao ver-se muito mais forte que os demais, resolver impor suas vontades. Em pouco tempo Israel espalhou o terror na escola e no bairro. Batia em todo mundo, tomava o dinheiro dos mais fracos, enfiava a cara dos outros na privada e ainda sobrava tempo para inventar novos tipos de atrocidades contra os colegas. As reclamações não demoraram a chegar aos ouvidos de seus pais. Estes que um dia foram os maiores defensores da justiça e da igualdade fizeram vistas grossas às maldades do filho: “O nosso Israel jamais faria uma coisa dessas, vocês devem estarenganados”.

É certo que toda a ação tem uma reação. E se antes Israel era alvo de chacotas, agora ele era alvo de ódio. Não podendo com ele, seus colegas evitavam o confronto direto e adotaram táticas de guerrilhas. Punham chiclete em sua cadeira, atacavam bombas de cocô em sua casa e ataques surpresas com bolinhas de gude nas esquinas eram freqüentes. Como Israel nunca descobria os culpados, todo o dia ele pegava um cristo para bater.

Preocupados com a segurança de Israel, seus pais adotaram várias medidas contra a crueldade destes terroristas suicidas. Israel agora só andava acompanhado de guarda-costas armados e cães violentos da raça pit-bull e rotwailer. A casa foi cercada, eletrificada e equipada com os melhores sistemas de vigilância. Eles ainda compraram todas as casas ao redor, puseram tudo abaixo e instituiram uma zona de segurança. Quem passasse por ali era carinhosamente recebido à bala. Mesmo se fosse o carteiro. Ele podia fazer parte do esquema.

Os defensores de Israel, ou melhor, seus pais e sua equipe de segurança, estavam pouco se fodendo para quantas pernas de criancinhas (e carteiros) já haviam sido dilaceradas pelos dentes ferozes de seus cãezinhos ou quantos pais já tinham sido alvejados só por tentarem proteger seus filhos. As equipes invadiam casas sem a menor cerimônia em busca de focos terroristas. Qualquer criancinha que portasse chicletes ou bolinhas de gude era imediatamente presa e torturada: “Onde você conseguiu isso? Quais são suas conexões?”. A insanidade estava instalada.

Hoje, Israel é um adolescente. E tendo crescido sem amigos, tornou-se ainda mais esquisito, cheio de manias estranhas, tiques nervosos e meio desequilibrado, um verdadeiro sociopata. Detesta todo mundo. Seu único contato social amigável é com seus seguranças, os quais não são lá muito bons exemplos. Graças a eles, montou uma enorme coleção de armamentos em seu quarto. Os pais acham bom ele ter um hobbie para se distrair, “coitado, não tem amigos”.

São 6:45 da manhã. Antes de ir pra escola, Israel enche seu casaco de armas e de raiva. Estava tudo preparado. Hoje ele ensinaria àqueles imbecis um conceito que havia aprendido na época em que morou nos Estados Unidos: mass killing.

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4 Comentários on "A história de Israel"

  • E o pior é saber que tudo isso NÃO é metáfora. Principalmente o mass kiling.

  • Rafael diz

    Tô com medo!

  • paulo diz

    eu também!

  • Anônimo diz

    Interessante.

    Não vou deixar meu nome e e-mail aqui, pois você sabe como é, qualquer um pode ser alvo de represálias.

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