Barbosa Silva e Silva

Nosso personagem nasceu no dia 14 de julho de 1950. Filho de eletricista e neto de pescador, sua mãe buscou nas redes inspiração para o nome do primogênito. Escolheu Barbosa, goleiro da seleção que perderia aquela partida histórica para o Uruguai dois dias depois. Pouco deu bola que Barbosa tinha mais cara de segundo, de terceiro ou até de quarto nome. Ficou assim mesmo, Barbosa Silva e Silva, no registro providenciado pelo tio Joel. O pai ausente andava doente da cabeça, em virtude de um acidente com um poste que lhe rendera dois galos na testa.

O garoto, pelo nome, foi ridicularizado pelo mundo antes mesmo de poder enxergá-lo. Teve infância sofrida e cresceu sempre envolto do azar e da injustiça. Há quem diga que, às vezes, esta se transveste daquele, ou então que o azar, como a sorte, não existe e tudo na vida é uma questão de injustiças. Cultivou o costume de ouvir pelo rádio as notícias do futebol e por ele se apaixonou. Sua definição do esporte era a soma do que ouvia dos locutores e com o que via em peladas na rua. Na Copa de 1958 pegou uma meningite daquele tipo mais severo, cuja cura é demorada e incerta, e ficou isolado num quarto de hospital até meados de julho, quando o fogo da comemoração já era brando.

Quatro anos depois, ainda menino, viu o pai ser vítima fatal de um estranho quadro febril, causado por vírus e raro na espécie humana. Foi obrigado a trabalhar para dar sustento à casa. Tio Joel o ajudou na falsificação dos documentos para provar que tinha mais de catorze anos e condições trabalhistas de virar ajudante de farmácia. Em tempos de Copa, todos sabem, os serviços que exigem plantonistas caem sempre na mão dos empregados mais moços. Foi assim que, para sua tristeza, Barbosa não acompanhou de perto o segundo título mundial da seleção brasileira de futebol.

O tempo foi passando e o jovem Barbosa aos poucos virou homem, escaldado pelas peripécias do destino e gato na idade, para usar palavra do jargão do futebol, tema principal do que tratamos aqui. Em 1966 serviu o exército nacional, lembrando que, para todos os efeitos legais, já tinha a idade requerida para a atividade. Pouco lhe importou a obrigação de ter mudado para uma cidade sul-mato-grossense, distante de até aonde a cobertura da Copa alcançava. Tinha sérias desconfianças na equipe brasileira como todos os torcedores mais fanáticos. Ruim mesmo foi ter permanecido ali, por compromissos da carreira militar, até agosto de 1970, se afastando mais uma vez da festança popular que é a conquista de uma Copa do Mundo.

A partir de então pouco se ouviu falar de Barbosa. Magoado com a vida, deprimido com as restrições que ela causava ao seu apreço pelo futebol, caiu no ostracismo. Um certo tipo de exílio, tão comum naquela época, mas com caráter voluntário. Perambulou por aí só com a companhia de garrafas de cachaça e nem em 1982 teve vontade de se reaproximar do mundo da bola.

Viveu assim até 1993, quando um certo jogador, convocado na última hora para o combate contra o velho conhecido Uruguai, teve a honra de classificar o país para o mundial do ano seguinte. Barbosa assistiu ao renascimento daquela paixão pelo esporte, por tantos anos dona exclusiva de seus sentimentos – e nos últimos 23 trocada pelo mal devastador que é o alcoolismo. Passou a se alimentar da animação e da ansiedade que os meses antecedentes à Copa dos Estados Unidos traziam. Contudo, refeições tão carentes de vitaminas e proteínas não eram suficientes àquele corpo tão maltratado pelos freqüentes baques do exagero. Um derrame cerebral manteve em coma nosso personagem entre maio e setembro no ano do tetracampeonato.

Barbosa deixou o hospital e passou a viver vida regrada e tímida. Menos por vontade e mais por conseqüência das lesões funcionais irreversíveis que lhe acometeram. Sustentado por pensão militar, vive quase há oito anos em frente à televisão e, quando a compaixão vem lhe visitar, toma banho de sol. Viu e não entendeu a convulsão de Ronaldo em 1998. Venha o penta no presente ano, em 2006 ou em qualquer outra oportunidade, seu significado para o pobre Barbosa será nulo.

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1 Comentário on "Barbosa Silva e Silva"

  • Sérgio diz

    Jacaré, você sacaneou o Barbosa mais uma vez…gostei.

    abs.

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