É difícil entender o valor que o homem atribui a certas coisas…

Bem, ela viveu por muito tempo, ao lado de sua amada seqüaz. Agora, um breve espectro do que um dia ainda foi. Inanimada, jogada descoberta, desnuda e assim é que se deitava na mesa. Seu olhar fixo animado pela morte, quase um suspiro, quase um “ainda bem, até que enfim”, quase cansado e quase aliviado. Lágrimas de todos arrancava, um por um ia cedendo, por estar ali desdenhosamente cadavérica. Só o corpo, ninguém nunca pensaria em uma alma para essa criatura. Fora tanto tempo que sua irmã, alma gêmea, vivera a seu lado. Mal podia acreditar naquele dia tão triste, tão solitário, tão frio, tão somente cinza. O vento acariciava seu corpo e por instantes recordemos de sua tão bela forma em vida. Desce mais uma lágrima e mais uma também por cada vez que a “irmã” passa sua terna mão, como se o carinho fosse machucar a cabeça da desgraçada. Mas essa graça não concedida, foi só em morte mesmo, pois em vida, se a sorte não era seu xodó não se pode imaginar o que seria.

As lágrimas se vertem em choro e o choro em soluço miúdo. A irmã que cuidava tão bem de um tal jardim de flores, agora arrancava uma a uma para lhe prestar cortejo. Iam-se as violetas, as margaridas, as rosas e … e os cravos? Os cravos também iam, lhe fariam companhia no mundo transcendente. Nessa hora, a pergunta que assombrava a mente dos poucos que assistiam o ritual, era se aqueles ordinários cravos arrancados poderiam alcançar o corpo já para além do rigor mortis. Mas ninguém nunca se preocupou com isso na realidade. Pois aquele corpo não ia para mundo transcendente algum também, ia para aquele debaixo dos sete côvados, entre os vermes e o esquecimento.

O lençol que sempre lhe fora fiel amante no abraço, agora servia-lhe de mortalha. Qual ser angelical que em toda sua glória, envolve-se nas asas de querubim protegendo todo o corpo imortal, deixando de fora, apenas seu alvo rosto. Ela, toda revirada, a irmã, quase uma carpidera. Mas sentia-se o sentimento verdadeiro naquele lugar. Se a sorte tivesse consumido outro dessa mesma família, com certeza não seria tão honesto o desespero. Choro consistente, daqueles de sujar a cara toda. Chegou a hora do sepultamento, crisântemos, os últimos a serem arrancados. Sem direito a tributos ou epitáfios, deita-se o corpo em terra, ventre de sua verdadeira mãe. Encerra-se a conversa silenciosa da memória, a irmã lhe dedica as últimas flores do que antes era o jardim das almas cúmplices. Cerra os olhos como se estivesse recitando uma última reza e ao abrir não conseguindo mais distinguir a terra de sua tão querida cachorra.

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1 Comentário on "É difícil entender o valor que o homem atribui a certas coisas…"

  • Rafael diz

    Bastante triste e muito bem escrito. Parabéns, gostei muito. Continue assim.

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