Felipão, o teimoso

Nas poucas semanas que faltam para a estréia do Brasil na Copa do Mundo, nada parece mudar a obsessiva vontade de Felipão em manter o esquema de jogo com três zagueiros e dois volantes. A idéia fixa do técnico é o chamado 3-5-2. No caso do nosso selecionado, três especialistas em defender formam o “3” e dois meios-de-campo exclusivamente marcadores são parte do “5”. Somando, dá meia-dezena de contumazes defensores desprovidos de outra habilidade que não seja defender.

Ora, mesmo deixando de lado o vício que é a numerologia do futebol (3-5-2, 4-4-2, 4-4-3 e demais variações), fica óbvio o caráter defensivista e bitolado da equipe armada pelo técnico gaúcho. E dá para fazer uma lista de motivos para comprovar que teimar em jogar assim é uma relutância inútil e equivocada.

Primeiro de tudo: o Brasil é glorioso quando seu ataque é insistente, não quando defende por capricho do técnico. Basta ver a história de nossas conquistas e quase conquistas em Copas. Quando ganhamos ou quando tínhamos condições de ter ganhado, o time era ofensivo. Buscar o gol com afinco foi sempre a maior teimosice da seleção, bem maior do que defender com 5 jogadores. (Tudo bem, em 1994 não éramos tão ofensivos assim, mas qual jogador – convocado ou não – Parreira poderia ter colocado no lugar do então pouco produtivo Raí? Perto de Felipão, Parreira tem apenas uma ligeira inclinaçãozinha pela retranca.)

Segundo: o esquema 3-5-2, de novo, não tem nada. Tem muito é de maçante. O Brasil nunca teve apego nem obsessão por copiar esquema dos outros, ainda mais quando nem os outros ainda o utilizam. Pelo contrário, a pertinácia da seleção brasileira sempre foi inventar esquema de jogo, chegar lá e arrebentar. Seja com o também embirrento Zagallo fazendo o falso ponta em 1958, ou com Gérson, Rivelino, Tostão e Pelé insistindo em não dar bola para o esquema do treinador em 1970, ou com a ausência de dois pontas viciados em 1982.

Terceiro: só na Copa de 1990 o Brasil foi intransigente em jogar com três zagueiros especialistas. O técnico era um (outro) cabeçudo, Sebastião Lazaroni. Lembram-se do resultado? Suamos para ganhar da Costa Rica e da Escócia por 1 x 0, fomos desclassificados nas oitavas-de-final e acabamos a Copa em 9º lugar.

Quarto: olhando o passado recente, os clubes brasileiros que montaram belas – e vencedoras – esquadras jogavam com dois, só dois, zagueiros de profissão. Seus técnicos fizeram questão de não mudar isso. A persistência, do meio pra frente, era o toque de bola e o gol. Nada de meios-de-campo “cabeças-de-bagre” também.

Foi assim com o São Paulo de Telê Santana em 1992 e 1993. Com o Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo em 1993, 1994 e 1996. Com o Corinthians de Luxemburgo e Osvaldo de Oliveira de 1998 e 1999. E mais ou menos assim com o Grêmio do cabeça-dura Felipão, que ganhou a Libertadores (a bem da verdade, o time jogava bem mais feio que os anteriores, mas também tinha dois zagueiros).

A mais recente escusa de Felipão, o opinioso, para manter os cinco defensores foi que Cafu, nosso ilustre ala-direito, não sabe marcar. Ele quis dizer, provavelmente, “desaprendeu a marcar, esqueceu como é”, já que toda a história do jogador mostra que ele sempre soube. Por exemplo, na Copa de 1998, Cafu só deixou de ser um perseverante marcador no jogo em que foi obrigado, pelos cartões amarelos, a ceder seu lugar ao lateral reserva. O próprio jogador andou dizendo que é só pedir para ele jogar assim ou assado que ele vai lá e, sem ponderações, joga.

Talvez por pirraça, Felipão vai manter a seleção jogando contra sua própria história na Copa. A nós, brasileiros, cabe cultivar a mania de torcer por quem quer que esteja nos representando (pela ocasião, os dois Ronaldos e seus lampejos criativos). E rezar para que sejam escassas as narrações da TV dizendo “Roque Júnior teima em sair da defesa com a bola dominada” ou “Gilberto Silva insiste com mais um lançamento”.

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6 Comentários on "Felipão, o teimoso"

  • Rafael diz

    Agora é torcer mesmo….. já estão todos lá…hehehehe

  • paulo diz

    Acho que os exemplos foram bem infelizes. Luxemburgo sempre foi um retranqueiro de marca maior. Ele foi o cara que insistiu no time com três volantes. O Oswaldo, um pouco menos, também faz isso. Eu não sei se é tão diferente assim escalar três volantes e dois zagueiros ou escalar três zagueiros e dois volantes. No fundo é a mesma merda. O Parreira é outro. Lembre-se que ele escalou o Zinho, um meia “criativo” só porque era bom na marcação. No fundo, a seleção de 94 jogava com três volantes. Jogou feio, mas ganhou. A única exceção foi o telê. Esse sim era ofensivo, adepto do futebol arte. Mas o São Paulo de 93 deu lugar ao futebol de resultados. O estranho é que os torcedores ao verem seus times jogando feio, fazendo faltas e mais faltas, mas levando a taça, apoiaram e continuam apoiando em seus times a permanência de técnicos retranqueiros como o Parreira, o Luxemburgo e até mesmo o Felipão. O mesmo torcedor que em seu time quer ver o futebol de resultado muda de postura quando o assunto é seleção. Na minha opinião isso é pura hipocrisia. Um bom exemplo recente é o Nelsinho. A torcida e os dirigentes estão pouco se fodendo se o time é ofensivo, se faz um monte de gols ou se joga bonito. O torcedor quer que o time ganhe, nem que seja no último minuto, jogando pior e com um gol de mão.

  • Jacaré diz

    Primeiro vamos aos exemplos do Luxemburgo. O time de 1996 do Palmeiras tinha, do meio pra frente, Amaral, Flávio Conceição, Djalminha, Rivaldo, Muller e Luizão.

    Desses todos, só o Amaral não tinha obrigações ofensivas. O Conceição, mesmo chamado do “volante”, apoiava bastante e ajudava a armar pelo lado direito, enquanto Djalminha se encarregava do lado esquerdo. Rivaldo era o meio-atacante, no estilo dos antigos “ponta-de-lança”.

    Luizão era o matador-artilheiro e Muller, quando não municiava o centro-avante, ou fazia seus próprios gols ou atraía a marcação deixando espaços pro resto da rapaziada. Se não me falha a memória os zagueiros (dois) eram Sandro e Cléber. E o negão vira e mexe também chegava na área.

    Esse time fez mais de 100 gols no Paulista de 1996. Se bobear, desde o tempo do Pelé uma equipe não atingia tal marca. Foi comparado à Academia de Dudu, Ademir da Guia e cia. Dá pra falar que o time não era ofensivo?

    Voltemos um pouquinho, ao mesmo Palmeiras de Luxemburgo em 1993 e 1994. O time teve mudanças de um ano para o outro, mas sempre jogou com dois zagueiros e dois volantes. E os volantes não eram “cabeças-de-bagre” como o Gilverto Silva ou como o Galeano. Diria que eram “semi-armadores” (César Sampaio e Mazinho em 1993 e César Sampaio e Flávio Conceição em 1994). Isso é time retranqueiro?

    Agora o Corinthians de 1998/1999, do próprio Luxemburgo e do Oswaldo de Oliveira. Outra vez do meio pra frente: jogavam Rincón, Vampeta, Ricardinho, Marcelinho, Edílson e Luizão. É mais fácil não achar nenhum volante nesses nomes do que achar três. Nos dois Brasileiros que a equipe ganhou, liderou da primeira à última rodada. E isso não dá pra fazer jogando na retranca. Ou dá?

    Não é difícil encontrar que diga que esse foi a melhor time da história do Corinthians. A equipe jogava pra frente por natureza. Chegava no gol por contra-ataque, por jogada trabalhada nas laterais, com toque de bola pelo meio, com cobrança de falta. De qualquer jeito.

    Agora eu faço a pergunta: esses são exemplos infelizes? Pergunte aos torcedores dos times se eles foram infelizes nos respectivos períodos.

    Pago uma caixa de cerveja se você demonstrar que aqueles exemplos que citei não são exemplos de times ofensivos. Use as armas que quiser: estatísticas, opiniões de torcedores, de comentaristas, recortes de jornais na época. Qualquer coisa.

    Tem que ser demonstração, não vale frase pseudo-feita do tipo “Luxemburgo sempre foi um retranqueiro de marca maior”.

    – – – – – – – – –

    Como havia escrito, em 1994 o Parreira colocou o Mazinho no meio de campo por que o Raí não estava bem. Só por isso a equipe ficou com três “volantes”. Ou seja: o técnico armou a equipe com os bons jogadores disponíveis na ocasião. Como o Telê na Copa de 1986, que colocou três “volantes” porque o Zico estava chumbado no banco. Como também o Luxa nesse ano no Palmeiras, que várias vezes escalou três volantes por pura falta de opção.

    Muito diferente é o Felipão agora, que tem à disposição vários meias e meias-atacantes (Kaká, Juninhos Paulista e Pernambucano, Ricardinho, Zé Roberto) e prefere trocar um deles por um zagueiro perna-de-pau.

    Em tempo: a Seleção da Copa de 1994 ganhou o troféu fair play da FIFA por ter sido a mais disciplinada e menos faltosa do torneio. Entre os finalistas do Rio-SP deste ano, o Corinthians também foi o mais disciplinado.

  • paulo diz

    … e depois o felipão é que é teimoso.

  • paulo diz

    …jacaré também morre pela boca.

    (o texto a seguir foi extraído do site do estadão)

    Brasil já fez mais gols que em 98

    Shizuoka – Com a vitória por 2 a 1 sobre a Inglaterra, nesta sexta-feira, na japonesa Shizuoka, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2002, a seleção brasileira já ultrapassou o número de gols que marcou há quatro anos. Em cinco jogos pela atual edição, ela já tem 15, um a mais do que em sete partidas pelo Mundial da França.

    Os 15 gols atuais são o mesmo tanto que a equipe comandada por Telê Santana em 1982 fez na Copa da Espanha, também em cinco jogos. Apenas em três Copas, das 16 disputadas anteriormente, o Brasil foi além do total de gols de agora: 22 em 1950, 19 em 1970 e 16 em 1958.

    Como o time de Luiz Felipe Scolari tem garantidos mais dois jogos na Copa da Ásia – um semifinal, contra Senegal ou Turquia; outro pela decisão do título ou do terceiro lugar -, dificilmente a marca de 58 não será ultrapassada.

    Ao todo, o Brasil marcou 188 gols e sofreu 82, nas 17 Copas. Confira abaixo os gols brasileiros em cada uma.

    1930 (Uruguai): 5 pró e 2 contra.

    1934 (Itália): 1 pró e 3 contra.

    1938 (França): 14 pró e 11 contra.

    1950 (Brasil): 22 pró e 6 contra.

    1954 (Suíça): 8 pró e 5 contra.

    1958 (Suécia): 16 pró e 4 contra.

    1962 (Chile): 14 pró e 5 contra.

    1966 (Inglaterra): 4 pró e 6 contra.

    1970 (México): 19 pró e 7 contra.

    1974 (Alemanha): 6 pró e 4 contra.

    1978 (Argentina): 10 pró e 3 contra.

    1982 (Espanha): 15 pró e 6 contra.

    1986 (México): 10 pró e 1 contra.

    1990 (Itália): 4 pró e 2 contra.

    1994 (Estados Unidos): 11 pró e 3 contra.

    1998 (França): 14 pró e 10 contra.

    2002 (Coréia do Sul e Japão): 15 pró e 4 contra.

  • paulo diz

    pra encerrar, um frase do Felipão:

    “A quem não acreditava também fica uma lição. Seria bom que essas pessoas tivessem mais cuidado antes de avaliar o trabalho de algum jogador num clube ou na Seleção”

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