Ônibus

A pancada foi tão forte que tive a impressão que o motor iria parar em cima do banco de passageiros, e a melhor previsão era que teria meu carro de volta somente após um mês. Lembrava de todos os pormenores, enquanto esperava a chegada do ônibus que me levaria ao trabalho naquela manhã. Aquele seria o primeiro de muitos dias longe da tranqüilidade e confortabilidade de meu carro.

A porta se abre e um cumprimento é ouvido. ” Olá gente, bom dia !!!” E todos que entravam, respondiam ao motorista com o mesmo bom dia honesto e alegre. Não foi só aquela diferença que percebi, estranhei também a camaradagem, as anedotas e “causos” que eram contados com alegria e muito riso.

E no embalo das paradas, freadas bruscas e dos pequenos encontros, seu Américo, morador próximo de minha casa, conta a estória de um amigo que estava em um campeonato de tiro. Na empolgação, esqueceu de colocar o protetor auricular, material de caráter obrigatório, e para não perder tempo e concentração, resolveu tapar os ouvidos com dois projeteis de calibre 38. Disputou, ganhou alguma colocação e foi embora. Causou espanto e risos por onde passava e também nos passageiros dos ônibus. Muita gente não acreditou naquela estória, mas “seu” Américo jurava que era verdade…

Discussões acaloradas, resultados de futebol, reclamações políticas e religiosas, ouve-se tudo no ônibus. E das mais variadas camadas sociais. Há alguns que fazem do ônibus o prolongamento do seu trabalho. Certo dia prestei atenção num vendedor de consórcio e na maneira que conversava com todos e cada pessoa que sentava ao seu lado era o início de mais uma tentativa de venda. Alegre, simpático, sorridente e a conversa não cansava.

Mas há também situações inesperadas…

Quinta-feira. Dia chuvoso e o ônibus com as janelas e porta fechadas. Durante o trajeto sente-se um odor nada agradável. Há aquele incomodo e um verdadeiro alívio quando a porta é aberta, dando passagem à uma tranquilizadora passagem de ar. Passam-se alguns minutos e novamente percebe-se a presença do incomodo odor. Severino, um nortista truculento que viajava no ônibus para alcançar uma obra no centro da cidade, dispara num tom alto e bom som para que todos possam ouvir:

– ” Seu” motorista abre a porta pelo amor de Deus, que alguém se borrou aqui atrás !!!…

Gargalha geral e um sorriso amarelo daquele rapaz sentado próximo ao cobrador.

Já de posse de meu carro, passo ao lado do ônibus das 7:30, que transita na mesma velocidade rotineira e contínua. Observo que calor humano se repete com a mesma alegria e descontração e até imagino as conversas que por lá correm. Ao som de “Everybody´s Talking” do filme Perdidos da Noite, sinto-me só, na confortável solidão do meu automóvel.

Compartilhe!

1 Comentário on "Ônibus"

  • Rafael diz

    Pois é, talvez a solidão dos nossos carros criem a falsa sensação de conforto e segurança, quando deveríamos compartilhar nossas experiências e emoções com outros. Muito bom o seu texto, parabéns. É assim que começa: quando você vê, jé existe um cronista em você.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *