Seleção e eleição

Para muitos, a coincidência entre Copa de Mundo e as principais eleições do país deveria se estender para muito além do caráter quadrienal que as acompanha. A seleção de homens públicos que representam o país do futebol no maior evento esportivo do mundo deveria ser eleita pelo povo.

Antes, porém, um plebiscito decidiria, majoritariamente, se necessário em dois turnos, o esquema tático de jogo. Como fizemos aquela opção, há anos, entre o esquema de governo presidencialista ou parlamentarista. No mesmo pleito a nação votaria ou na chapa “futebol de resultados” ou na “futebol-arte” – sem nenhuma referência à monarquia e à república.

A televisão, obviamente, teria de ceder espaços para as propostas de cada candidato a técnico, preparador físico, massagista, quarto-zagueiro e por aí vai. Talvez o espaço não fosse gratuito e sim comercializado como propaganda. Uma espécie de vingança das emissoras contra o futebol. A mesma parte que recebe pelo direito de imagem em transmissões de jogos pagaria pelo direito de exibição no horário eleitoral do futebol.

Os jogadores formariam blocos ideológicos. A esquerda teria liderança de Roberto Carlos e Rivaldo, com Júnior e Denílson como seus suplentes diretos. Defenderiam um plano de jogo baseado na força da individualidade, com propostas de chutes fortes e incansáveis dribles. Às críticas que os líderes da chapa seriam egoístas e pouco objetivos responderiam com a experiência de já terem feito parte dos eleitos em outra Copa. Sem falar na pós-graduação no futebol espanhol e italiano, o que seria, digamos, comparável a estudos na Sorbonne. Ainda faria parte da coligação o moderado e calado goleiro Dida.

A direita entraria esvaziada na campanha. Há tempos nenhum grande nome não brilha tão intensamente naquela faixa de campo. Talvez a estrela do velho e finado índio de pernas tortas ainda ofusque novos ídolos. Mas estariam lá, pelo sim e pelo não, Cafu, Belleti, Juninho Paulista e Edílson. Vampeta iria na onda desse último, mais pelo companheirismo do que por real posição política. Meio a contra-gosto, para não se isolar, Rogério Ceni também. O partido representaria o equilíbrio e a polarização, elementos tão importantes numa democracia.

O centro estaria bem servido com a liderança carismática de Ronaldo. Ele, a bem da verdade, teria simpatia tanto por um lado como pelo outro. Uma habilidade de relação pública incomum, junto à bola ou longe dela. Só para evitar desagrados procuraria manter-se em cima do muro. Aproximações poderiam ocorrer, às vezes com a esquerda, às vezes com a direita, como que para mostrar desde já sua capacidade de embaixador, profissão possível a um jogador de futebol aposentado. Que o diga o rei do futebol.

O baixinho seria o candidato independente e certamente não ficaria fora dos eleitos. Levantaria a bandeira do “homem que faz” e pouco precisaria falar – ou chorar. Um populista por natureza, naquele sentido da palavra que diz “o que busca no povo os seus temas”.

Bom, no final das contas, já dizia aquele ex-presidente que a democracia não é mesmo um regime tão bom assim, mas, não havendo outro melhor, vamos com ele. Nós aqui, experientes em tempos de autoridade única, sabemos que, onde há sargento, há normas militares. Onde há normas militares, não há voz democrática. Se não há voz democrática, não há escolhas legítimas. E sem escolhas legítimas, haverá o penta?

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2 Comentários on "Seleção e eleição"

  • paulo diz

    O Felipão ia gostar de você. Com uma marcação cerrada dessas…

  • Jacaré diz

    Hehe, eu só votaria nele para síndico do meu prédio. :o)

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