A Grande Musa

Cinco amigos intelectuais – ou quase – numa mesa de bar. É… o que você estava pensando? Intelectual também é gente sim senhor. E, afinal, ninguém resiste a uma boa cervejinha gelada, unanimidade nacional.

O que não era e nunca foi unanimidade: a escolha da mulher perfeita. Então, cansados de falar sobre economia, política e até futebol, resolveram acordar os hormônios. Todos com mais de sessenta, com exceção do mais moço (como diziam) que completou cinqüenta e seis em novembro passado. Escorpião o bichinho. Danado que só ele!

Mas vamos ao papo dos amigos, isso sim que interessa.

– Pra mim, a melhor de todos os tempos será sempre a Grace Kelly. Ela sim é o meu tipo. Delicada, feminina, refinada… andar e postura sofisticados… não se fabricam mais mulheres assim. A não ser a Nicole Kidman, mas ainda acho que não dá para comparar.
– Na-na-ni-na-não! Não se fabricam mais mulheres como Gilda, você quer dizer. Sejam sinceros, alguma outra conseguiria ser tão convincente ao dizer “Se eu fosse uma fazenda, não teria cercas”? E alguém aqui duvida? Ainda penso que não existe nenhuma mulher à sua altura. Se fossem fazer um remake do filme, não haveria atriz que pudesse substituir minha diva cantando “Put the Blame on Mame”, tirando a luva e o nosso fôlego! A refilmagem teria que ser com a tal fazenda. Enorme, vista de cima, contagiante, escapando para todos os lados. Sem qualquer cerca. Gilda, Gilda…
– E quem é essa tal Gilda? Ninguém mais tem esse nome hoje em dia.
– O Beto não sabe quem é a Gilda, é o mais alienado. Ele não sabe nem quem é a Patrícia Pillar.
– Claro que sei. É a namorada do Ciro. De política, eu entendo.
– Ah é? E que novela ela já fez?
– E eu lá assisto a novela? Isso é coisa de via… perdão, senhores. Quase me esqueci. Isso é coisa de Eduardo.

Eduardo não esboçou qualquer reação. Continuou calado e pensativo, olhando para seu copo de cerveja. Parecia excessivamente concentrado na espuma.

Alfredo continuou, empolgado:

– Voltemos à Gilda, meus caros. Ou Rita Hayworth, como dizem lá. Esta sim: canta, dança e ainda é boa atriz… não tem para mais ninguém.
– Pois eu acho que ela tem quadris estreitos. E ombros largos demais. Para mim, mulher tem que ser petit.
– Que petit o quê! Vejam a Sophia Loren. Enormeeee… literalmente, uma mulher de peito! E, como a sua xará Sofia, de Machado de Assis, foi cuidadosamente esculpida pelo tempo. Está melhor a cada ano!
– O mesmo não se pode dizer da Elizabeth Taylor. Quem diria, a Cleópatra…
– Vocês estão mesmo ficando velhos demais. Para mim, a favorita continua sendo a Isabella Rossellini, com aqueles olhos acesos.
– Eu sou mais a mãe dela, Ingrid Bergman. E que mamãe, diga-se de passagem! Não sou o mesmo desde “Casablanca”.
– E você, Eduardo? Só na cervejinha?
– Pensando.
– Na sua musa?
– Pois é.
– Pode botar na roda. Estamos curiosos, né não? Aqui todo mundo tem que dar palpite, se não nem vale.
– Não consigo escolher uma só.
– Melhor ainda. Vamos à lista!
– Então anotem aí… Regina Duarte nos tempos de namoradinha do Brasil. Natália do Vale em “Que Rei Sou Eu?”. Malu Mader em todas as suas aparições, de dourada à rebelde, pousando de Top Model e virando a cabeça do Dono do Mundo. Fetiche em “Justiceira” e alucinante em “Labirinto”. Cláudia Abreu adolescente. Giulia Gam na adaptação de “Dona Flor e seus Dois Maridos” para a televisão e naqueles episódios do Nelson Rodrigues… a Babalu de “Quatro por Quatro”, grande Letícia. Bruna Lombardi, eterna musa, inesquecível em “Roda de Fogo” . Satisfeitos ou querem mais?
– Mas é um patriota mesmo!
– O Eduardo? Patriota? Conta outra! Ele torceu pela Itália no fim da Copa de 94 só porque não gosta de fogos e muito barulho.
– Não é verdade. Eu não troco o Brasil por nada.

E ele estava sim, sendo sincero. Mais do que por amor a seu país, Eduardo não conseguiria viver longe da televisão brasileira. Especialmente das novelas. Já até recebeu um convite para trabalhar na terra do Tio Sam, mas como sobreviver assistindo aos enlatados americanos? México nem pensar! As tramas eram terrivelmente artificiais e as mulheres então… nem se fala. A maquiagem horrenda. Saíam da piscina ou do banho com os cílios emplastificados de rímel, finalizados com lápis e delineador. Ou, pior, já pensou ter que assistir à versão latina de “Vale Tudo”, sem Odete Roitman? Impossível. Mas é fato: a imortalizada Odete foi rebatizada e recebeu o nome pouco atrativo de… Lucrécia (as Lucrécias que me perdoem, mas Odetes são fundamentais)!

Um absurdo! Um absurdo!

Não, definitivamente ficaria com o Brasil. Nenhuma novela se comparava às nossas… podiam até não chegar a um consenso sobre a musa daquela mesa, aceitaria até que a cerveja fosse importada da Alemanha, ou de outro país menos tradicional… suportaria o sotaque português do Paulão e poderia trabalhar diante de seu computador americanóide. Mas as novelas… não, as novelas decididamente não.

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2 Comentários on "A Grande Musa"

  • Felipe diz

    Muito legal. Parabéns!

  • Daniel Trzesniak diz

    Crônica muito divertida e bem escrita.

    Realmente as telenovelas brasileiras são excelentes. O texto mesmo se encarrega de citar os exemplos…

    Leitura recomendada, garantia de diversão.

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