Do Hábito de Guardar Jornais

Ou como alguém com bronquite alimenta seus ácaros de estimação

Tenho o péssimo hábito de guardar jornais antigos. Digo péssimo porque até hoje não vi real utilidade nisso, a não ser reunir ácaros à minha volta, alimentando minha bronquite. Mas, como não há como impedir essa compulsão, continuo guardando exemplares de 15 ou até 20 anos, geralmente sem o menor critério, sem organização alguma. São, talvez, a parte da história que escapa do frio processo da reciclagem …

E eles, ao sabor do tempo, vão amarelecendo – tornando-se frágeis, principalmente por culpa do meu desleixo. É neles que, muitas vezes, encontro reportagens interessantes, pérolas verdadeiras, sobre os temas mais diversos.

Durante mais de 10 anos guardei um exemplar do Jornal do Brasil, do exato dia em que o ônibus espacial Columbia foi ao espaço pela primeira vez. Era uma página magistral, com esquemas do veículo, detalhes da missão, um prato feito para um adolescente ligado em ficção científica. Penso agora que, lá no meu íntimo, esperava um dia ir ao espaço também, “audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve”, como na abertura de Jornada nas Estrelas. Até agora, porém, não fui convidado pela Nasa …

Esse exemplar, em especial, sobreviveu a muitas mudanças. Durante o período em que o guardei morei em quatro casas diferentes, passei de adolescente a adulto, de solteiro a casado, de filho a pai. Por isso, era uma lembrança que fazia questão de manter, dentro de um envelope, sempre levado nas mudanças ou guardado na escrivaninha.
Até que (sempre há um “até que…”) numa daquelas arrumações de fim de ano, ou fim de semana, não sei bem, uma empregada desavisada achou que “aquele jornal velho já passou do tempo de ir para o lixo”. E foi, para a vala comum da imprensa diária – algum lugar entre a lixeira e o embrulho para ovos ou peixes.

Hoje, um dos meus tesouros é uma página do JB de 13 de junho de 1988, dia do centenário de nascimento de Fernando Pessoa – que ao invés de simplesmente comemorar a data, relembrando o grande poeta, desvendou um de seus heterônimos até então pouco conhecido – Rafael Bandaya, um astrólogo.

Lá estão mapas astrais compostos pelo próprio Pessoa, ou melhor, por Rafael Bandaya – incluindo os mapas de alguns de seus heterônimos mais conhecidos. No verso, página 2 daquele inesquecível Caderno B, estava uma análise astrológica sobre Fernando Pessoa, talvez a maior representação de um gemniano já surgida sobre a Terra.

Nessa época, eu tinha um ou dois anos de estudo de Astrologia, e talvez uma década de muita leitura de poesia. Pessoa, não é preciso dizer, é um mito para qualquer um que goste de poesia, de boa literatura e da língua portuguesa. Sua multiplicidade, com perdão da aparente incongruência, é um caso único. Este ainda está comigo, até porque o colei no meu caderno de estudo de astrologia, e posso vê-lo sempre que necessário. No caderno também estão vários mapas astrais feitos por Pedro Tornaghi, para o perfil do Caderno B, falando sobre gente como Renato Russo, Gabriel Vilella, Marina Lima, Fernanda Torres, João Bosco, Adriana Calcanhoto – um tesouro, pelo menos para mim.

Quando minha paixão pelo teatro surgiu, também no final da década de 80, guardei muitos recortes, especialmente sobre gente de quem eu gostava. O cantor Oswaldo Montenegro, com seu grupo de Menestréis, estava lotando os teatros naquela época, com seus musicais. Assisti aos menestréis na escola, e quando O GLOBO fez uma ótima reportagem no seu Segundo Caderno sobre Oswaldo e seu grupo, guardei o exemplar.

É engraçado ver hoje que, na foto de seu grupo estavam Deborah Blando, agora uma cantora de sucesso, Milton Guedes, o cantor-gaitista que é requisitado pelos melhores artistas da MPB, as atrizes Dedina Bernardelli e Tereza Seiblitz, que vez ou outra estão na telinha, em alguma novela, mas que nunca abandonaram o teatro. Tenho, também, reportagens sobre o sempre polêmico Gerald Thomas, na época de “Carmem com filtro”, só para lembrar de alguns exemplos desse arquivo confuso que desafia as traças na minha casa.

Mas não posso negar que a “menina dos olhos” é uma coleção informal do caderno Idéias, do JB – no tempo em que era um tablóide muito bem diagramado e, principalmente, muito bem escrito, por articulistas diversos. Um oásis de cultura e informação no meio de um tempo conturbado – o final da década de 80, que assistiu a tantas mudanças no mundo.

Por mais que tenham tentado levá-los para o lixão, os tablóides sobrevivem na minha sala, acho que mais de cinquenta exemplares. Lá encontro textos sobre poetas como Cacaso e Ana C., que morreram cedo, sobre escritores pop como Stephen King, sobre mentes como Freud, Proust, Kafka e uma lista interminável de bons textos sobre ótimos assuntos. Não consigo me desfazer deles, numa clara manifestação de egoísmo da qual não me envergonho.

O que me espanta, e às vezes me entristece, é ver que a maioria de meus amigos e conhecidos, não nutre qualquer interesse pelo meu tesouro de papel, e geralmente consideram desperdício de tempo e de espaço formar pilhas de jornal em algum canto da sala. Quando mostro um desses exemplares a alguém, geralmente ouço um frio, mas polido: “Legal, cara!”, e é só.

Pensei que o desprezo fosse fruto da minha falta de método. E se eu criasse um arquivo, com fichas catalográficas, ou se scaneasse tudo para meu possante computador? Talvez, assim, eu parecesse apenas um “intelectual organizado” e não um “jornalista exótico” …

Pensando nisso, com o tempo, tentei adaptar essa compulsão a acumular jornais velhos, para algo mais próximo da arquivologia. Tentei, realmente, dar a esse processo uma organização lógica, que me permita, daqui a 20 anos, encontrar textos como este que estou escrevendo, sem ter que revirar até mesmo os armários do banheiro … Só que, estupefato, percebi que assim tudo perdia a graça.

Prefiro essa paixão sem motivo, que me permite bons momentos relendo coisas de outra época, subvertendo as linhas do tempo, que parecem consumir tudo cada vez mais rápido. Se ninguém entende porque eu faço isso, pelo menos os ácaros e traças me agradecem.

Compartilhe!

9 Comentários on "Do Hábito de Guardar Jornais"

  • Mauro Dias de Goes FIlho diz

    Eu conheço este escritor..q por sinal é mto bom!!! Mas tem um porém, o nome dele não é “Ri Caruso” e sim RICA URSO!!!!

    Atenciosamente

    Mauro Dias

  • Mauro Dias de Goes FIlho diz

    RICA VC É FODA!!!!!

  • Patricia Zayat diz

    Minha mae tinha um livro quebra-galho que ensinava uma receita caseira para fazer um recorte de jornal durar 200 anos. Crianca, eu pensava, puxa, quando eu for celebridade (mesmo que por um unico dia)vou fazer exatamente isto! Bom, 1/4 de seculo se passou e nem uma linha sobre a minha dignissima pessoa foi publicada ate hoje… Fora o trauma – risos – acho uma pena me desfazer de textos e diagramacoes (ah! o Globinho…)que me trouxeram outras perspectivas, outros conhecimentos. Quem escreve sabe o quanto eh dura a batalha contra o papel em branco. E quando um texto sai redondinho entao, nao da para despreza-lo assim!

    Tem outra coisa tambem. Rubem Alves faz uma relacao muito interessante sobre o fim do mundo (no sentido ecologico, de equilibrio ambiental)e o valor quase descartavel que damos ao papel em nossa dita SOCIEDADE DA INFORMACAO. Vale a pena ler. Talvez voce conheca, esta no livro CENAS DA VIDA.

    Ha muito o que falar sobre o habito de guardar jornais e revistas… Acho que o maior barato eh sentir que mesmo nao tendo escrito aquelas linhas, somos, enquanto leitores e portanto co-autores, um pouco que donos de tudo isso.

    Um abraco,

    Muito bom seu texto!

    Patricia Zayat

  • Rafael diz

    O jornal da Columbia!!!!!! Meus Deus!!! Como ela pôde fazer isso!!!

  • Juliana K. diz

    Você conseguiu transmitir que não se trata apenas de um simples hábito de colecionar jornais. Espero que já tenha contado essas histórias para os seus filhos, principalmente a da Columbia.

  • Joao Paulo diz

    Caro amigo William.

    Joga fora nao… Algum dia, algum amigo ou familiar ou talvez o lixeiro vai realizar que o que você construi – como o intrépido adolescente que foi ou sonhou ser – foi sua própria e secreta máquina do tempo!

    Um prazer ler sua cronica.

  • iva resende coelho diz

    gosto muito dos textos de rubem alves e gostaria muito de conseguir o texto escrito por ele intitulado “o fim do mundo está proximo”.

  • Geraldo Luiz diz

    Que bom saber que não estou sozinho no universo, existem outros loucos como eu!
    Excelente a crônica, ela fala também um pouco de mim.

  • Igor diz

    Meu pai tem mania de guardar jornais velhos, faz pilhas e pilhas de jornal, tem jornal por toda casa, jornais que tem mias de anos guardados, alguns chegam ate dar traça, fica difícil de limpar, porque ele se incomoda quando alguém mexe nos jornais, ele ocupam espaços, como sofá, moveis de banheiro, moveis da sala, ele não aceita ou não procura ajuda sobre o assunto, a mania ja vem se arrastando ha anos.
    Alguém tem alguma sugestão?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *