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Gol de Placa - (04-06-2002) - por J. Pedreira

A televisão não me acordou na hora em que eu a programei: oito e vinte.

Despertei ouvindo um barulho infernal. Poderia ser celestial, purgatorial, sei lá.. .. o certo é que não dava mais para dormir: vozes perturbavam gritando gol, goooooool, gooool.

Olhei para o despertador digital e vi seus números vermelhos piscando, piscando sem parar - Acho que na madrugada faltou luz. - Pensei.

Liguei a TV num canal que exibe a hora, vinte e quatro horas sem parar. Marcava nove horas e . . .. . . . nem olhei o resto da hora. - Caramba, como dormi!

Então me lembrei que o barulho lá fora poderia ser comemoração de algum gol. Mas de quem? Sei lá, eu ainda estava um pouco sonâmbulo e nem me interessei. Mudei para o canal da Globo - o 5. Com a visão embaraçada, li no placar:
Brasil 0 X 0 Inglaterra. - Que alívio! Acho que hoje a Bolsa de Valores: a Bovespa, vai ser calma. Ao meio dia darei uma olhadinha no telejornal e verei o pregão: aquele que aparece a cotação da Bolsa. - Mas que diabo eu tenho a ver com isso? Indaguei-me. Pois é.

- Se a da Argentina saiu na frente quebrando tudo, porque isso não poderia acontecer também aqui? Então eu tenho alguma coisa a ver. Não quero ver o povão quebrando tudo só por causa da quebra da Bolsa. Nossos bolsos, digo, os da Nação - há muito estão quebrados. Deeeeus me livre!

Gooooool, goooooool, goooool do Brasiiiiil. Novamente aquele barulho, aquela gritaria infernal lá no lado de fora.

- Será que esse povo não tem mesmo o que fazer? - Pensei. - Ué! Mas na TV ninguém fez outro gol, como é que pode? Estão comemorando gol sem fazer gol? Vou dar uma olhadinha lá fora. Vou conferir esta perturbação, esta arruaça.

Um pouco apreensivo devido à tanta violência, abri apenas uma frestinha da porta e espiei. Ninguém na rua. Não senti cheiro de pólvora, não ouvi barulho de bombinha e nem de tiros - que alívio! Só gritaria de gol.

Goooool do Ronaldinho, gooool do Brasil. Outra vez, vozerios na rua. Um barulho forte. Uma coisa de loucos.

- Diabos! Estas pestes não calam - esbravejei. - Não agüento mais essas besteiras de torcedores, de arruaceiros, sei lá. Vá tudo pra puta que pariu. Desabafei.

- Calma lá rapaz! Hoje é jogo do Brasil. Fiz minha autocorreção e continuei a olhar.

Um caminhão passa e atrás dele um batalhão de garis corre, corre colhendo o imprestável, o repugnante e ao mesmo tempo eles chutam e batem com pedaços de pau na lataria do caminhão e gritam: goooool, goooool do Ronaldinho. Gol, gol, gooooool do Brasiiil e no meio de tudo isso, inúmeros pregões: aqueles que hospedam a ferrugem, que ferem e machucam.

- Não. Eles nada festejam. Apenas trabalham catando o resto de todos os nossos sonhos, o fim de todos os nossos luxos: BOLSAS DE LIXO.



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Fabiane Secches - fsecches@hotmail.com • 12-07-2002 12:14

Achei a sua crônica corajosa. Desafiar o tema do futebol, que é a nossa maior paixão (ainda mais pós Penta), e demonstrar uma realidade ao mesmo tempo tão pesada e tão verdadeira é, no mínimo, um ato de coragem. Pelo que, aos meus olhos, vc já merece os parabéns!

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