Sinais

Começou a andar sem saber para onde ia. Tropeçou em vírgulas, parou em pontos, comeu algumas letras e continuou a viagem. Não sabia ao certo o que estava fazendo, nem quem precisava encontrar, sabia apenas que precisava chegar.

No seu caminho errante, a certa altura, se deparou com um asterisco. Era um asterisco jogado num canto da estrada, meio abandonado, meio confuso, ao certo incerto. Se aproximou do asterisco, já que estes interessantes exemplares sempre assinalam algo importante. Puxou conversa, ele não respondeu. Ofereceu água, ele não quis. Nervoso, sacudiu o pobre sinal, sem receber a menor reação. Pobre asterisco largado no chão. Não respondia a mais nada.

Certo de que aquele era um aviso, rumou para o sentido indicado. A cada passo o caminho ficava mais estreito, e a cada curva mais árido. Quando parecia que a solidão era eterna, encontrou um colchete pendurado em uma árvore. Ei amigo colchete, o que faz aí? Ele nada respondeu. Ei amigo colchete, jogue-me um fruto repleto de seiva, esse calor está me matando. Num rápido golpe, uma aspas caiu na cabeça do andarilho. Gritou algumas reclamações para o colchete, pegou as aspas e saiu andando.

Daquele ponto em diante o caminho ficou bem diferente. Uma grande planície verde se estendia até o alcance dos olhos, e a cada passo uma mata mais fechada aparecia. Tentou beber as aspas, mas elas eram muito finas para conterem líquido. Então mordeu-as e seu sabor era falso como algo que não deveria estar ali.

Seguiu viagem, andou apressado, andou devagar, até que parou em frente ao enorme obstáculo. Um grande, pesado e imponente mais.

Não conseguia passar, não conseguia pular, não conseguia correr.

Sem saber porque, retirou toda a sua roupa, nu em origem. Aos seus olhos, a terra engoliu o grande mais e ele pode passar.

Vulnerável sentia toda a força do vento ao seu encalço. Sentia as duras mãos das folhas batendo em seu peito, os finos chicotes da grama cortando suas pernas, e o forte braço dos céus pressionando sua cabeça.

Caminhou até onde sua força aguentou. Persistiu até onde pode. Mas uma vontade era mais forte, e em um momento não pode mais prosseguir. Sentiu a perna amolecer, o pé desobedecer, e uma estranha pressão o jogou ao chão.

No seu delírio, não sentia mais o inútil corpo, não via mais o verde, não soprava o intenso vento, não reconhecia mais a dor.

Levemente, instante a instante, seu corpo revelou-se em mudar. Era apenas uma massa, transmudando sua forma, alinhando seus instintos, assumindo outro lugar.

De repente, sem entender como, ele se viu em paz novamente. A angústia o abandonara, a tristeza não mais o perseguia, sua forma não mais importava, e era irrelevante o que via. Sem saber como , sem ter como explicar, ele era apenas uma única existência, um único refletir. Ele era agora sublime e onipotente, um igual.

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