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Lição de Vida - (05-06-2002) - por Ri Caruso

Pai e filho andam pela rua.

Pai mendigo e – como filho de peixe peixinho é- o filho também.

Passando pelo centro da cidade, o filho estagna. Parece hipnotizado diante de uma vitrine. Olhos brilhantes. O pai só se dá conta uns quinze metros adiante. Volta. Pergunta ao filho:
- Qué qui foi muleque?
- Sabe qui é painho…? Tá veno esse casacão aí da frente? Essa buniteza só qui é … Então… Meu único sonho nessa vidinha qui nóis leva é tê um desse!
- Tá!… mais vamo imbora!

Como se sustentasse agora o peso do mundo em seus ombros, o pai seguiu caminhando. Pensava:

- Diacho! Qui droga de pai sô eu qui num posso dá um presente pro meu minino?!!
Tomou então uma decisão: Iria trabalhar incansavelmente até que juntasse os R$ 900,00 que o mimo lhe custaria.
- Vale a pena!- concluiu.

Do pensamento passou às ações e arrumou um emprego de manhã, um à tarde e outro à noite! (como se não bastasse ainda fazia bicos de madrugada e aos finais de semana).

Trabalhava de sol a sol; sete dias por semana; fizesse chuva ou fizesse sol. Obstinado estava. Era uma questão de honra.

Como quisesse abreviar o lapso temporal que separava o filho de seu sonho, passou a ingerir somente o necessário para arrastar suas pernas mirradas até o serviço. Tinha que economizar.

A labuta era árdua pois, chucro e besta como era, que outro tipo de trabalho iria arrumar se não o de carga? Braço, coragem e fé.

Consequência dos fatos: adoeceu. Adoeceu mas não esmoreceu. Persistia inabalável em busca de seu objetivo (enfim tinha um).

Ao cabo de quatro meses, já com a saúde comprometida por uma tuberculose digna de causar inveja ao poeta da morte (Álvares de Azevedo), atingiu sua meta. Tinha no bolso a quantia que para ele, naquele momento, compraria a felicidade de sua família.

Foi até a loja e comprou o casaco para seu filho. Voltou cambaleante para seu barraco (se não rastejava era porque tinha ainda como motor a satisfação). Entregou o “troféu” ao menino e de um só arrebate caiu de cama. Suas forças esvaiam-se.

Olhou pela pequena fresta ao lado da cama e ao observar o garoto saltitante indo para a escola com seu casaco nono (novo? Era o único), sentiu pela primeira vez na vida a sensação do dever cumprido. A benção que Deus dá a quem fez o bem. Chorou.

Passadas cinco horas, escuta ruídos lá fora, barulho que o fez despertar do sono profundo que anuncia a morte. Era seu filho, voltando da aula e ……. sem casaco!

Assustado, o pai pergunta a seu rebento:
-Cadê seu casaco, fio?
-Pai, eu tava ino pa escola daí, no meio du caminho, incontrei um minino mais pobre qui nóis. Tava todo tremeno de frio, sentadinho na sarjeta e tentano se cubrir cum duas foia de jornal! Cheguei perto dele… fiquei cum dó! Tirei meu casaquinho e dei prele!

O pai, num último suspiro de vida, coloca a mão no ombro de seu tão caridoso filho e, com a voz embargada, lhe diz:
-Filho……… vai pra puta que pariu!!!!!!!!!!!!



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chico arantes - aranteschico@hotmail.com • 12-06-2003 06:38

O final mata a pau!!!!

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