O amor é azulzim

O ônibus parou na pracinha e lá veio ela. Parou na roleta, azul. Engraçado, ela era toda cor. Outro dia estava especialmente bonita, de saia branca, quase justa, marcando suas pernas longas, e camiseta – sempre de alças – verde oliva, que destacava seus olhos, quase verdes. Hoje estava azul, um só azul num vestido de tricô.

Ela geralmente estava lá àquela hora e eu a observava durante os quarenta minutos de viagem até meu ponto de descida. Não era religiosa sua jornada, às vezes faltava um dia, dois; às vezes vinha por uma semana inteira. Hoje passou a roleta. Muitas vezes, por pegar o ônibus já cheio, ela ficava na parte da frente do trocador; ainda assim eu a via, mesmo quando se sentava. Mas na maioria do tempo ficava em pé, olhando tudo atentamente do alto do seu, acho, mais de 1,70m. Quando passava prá trás, não ia além da metade do ônibus.

Hoje parou na parte mais larga, onde acabam os assentos duplos, apoiando-se em um deles. Alguém sempre segurava sua pasta. Quando a vi pela primeira vez, olhei-a porque a achei bonita. Não era propriamente linda, mas chamava atenção – mais pelo porte, apesar de magra. Mas o que me prendeu mesmo nela foi sua tristeza. Mulher para mim, como para Vinícius de Morais, tem que ter alguma coisa de triste, de marcada, de incompreendida, e aquela moça ali, com o olhar tão distante, em pé no 413, era pura tortura na minha viagem até o trabalho.

Esta tarde eu estava particularmente desprevinido. Sempre uso óculos muito escuros, para agüentar o bem-vindo sol dessas tardes tropicais, e então posso observar a garota triste sem constrangimento algum. Passo longos minutos olhando para os seus braços finos, reparando no seu jeito de arrumar incessantemente o cabelo e depois largá-lo prá lá, aos caprichos do vento, sem que ela nem ninguém perceba. Mas hoje estava sem os óculos. E ela estava parada bem perto de mim, não podia contar nem com a distância como disfarce.

Tentei ridiculamente despistar. Ela parecia não dar conta de mim, agiu como sempre. Quem não a conhecesse como eu diria que ela se incomodava com meu assédio. No entanto, era esse mesmo o seu jeito, de ficar assim, olhando para tudo em volta e do lado de fora do ônibus como se quisesse desviar de alguma coisa. Fazia pequenas pausas em cada pessoa, sapato, carro ou outdoor, como se tivesse pegando algum detalhe daquilo ou evitando olhar para algum outro lugar. Acho sinceramente que não, pelo menos nem sempre; ela faz isso mesmo por hábito, mas é bonito de se ver. Seus olhos parecem exageradamente atentos, mas sem ânsia, apenas com muito interesse. Às vezes parece que lacrimejam; enchem-se por uns segundos, fixos em algo não especial, e depois voltam aos pousos de costume.

Sempre desço antes dela. Não sei se sua casa, ou trabalho, ou casa do namorado ou da avó, fica em um ponto depois ou se ela vai mais 40 minutos até o terminal e pega outro ônibus. Desço, com o ônibus já vazio àquela altura do percurso, e às vezes ainda olho lá prá dentro de novo. Muitas vezes cruzo com o olhar errante da menina, que, contudo, pára em mim como se parasse no poste, sem nenhuma manifestação especial.

Hoje, no entanto, não sei se encorajado pela minha exposição não usual, resolvi continuar até que ela descesse. Não desceria atrás – seria patético demais – mas precisava que a garota do ônibus fosse mais real. Queria ver prá que lado ela ia, se entrava em algum lugar, comprava um sorvete ou encontrava alguém e contava um caso no meio da rua. No ônibus ela está sempre sozinha e sua voz, que só ouço quando ela agradece a quem carrega suas coisas, é igualmente triste, embora ela sempre agradeça sorrindo. Queria ter certeza que ela não é apenas coisa da minha cabeça: minha namorada ideal, bonita, jovem e triste, que pega ônibus de tarde.

Mas não adiantou nada. Uns três pontos depois de onde eu deveria ter ficado ela saltou, leve e azul. Me aproximei da porta, para não perder nem um sinal, e fiquei olhando quando o motorista deu a saída. Ela desceu suave, porém firme e começou a caminhar na mesma direção em que o ônibus ia. Como se ela tivesse apenas cansado de ir lá dentro e resolvido continuar seu trajeto a pé. Não parecia ir para o trabalho, muito menos prá casa descansar. Ainda continuei a vê-la por um bom tempo, um pouco atrás, ainda no mesmo rumo, ou sem ele. Não fez nada que acrescentasse alguma coisa ao que eu já não sabia dela.

Era ainda minha menina azul triste, fascinantemente triste.

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4 Comentários on "O amor é azulzim"

  • Felipe diz

    Gostei bastante. Belo texto, poético, carinhoso, repleto de sentimento. Muito bom mesmo. Consegui “ver” a garota em minha imaginação. Parabéns!

  • Rafael diz

    Puxa vida, você escreve bem mesmo! Parabéns Liliane

  • Daniel Trzesniak diz

    Texto muito interessante e bem escrito.

    Muito legal!

  • Fabiane Secches diz

    Parabéns pelo texto, Liliane. Muito sensível e de uma riqueza poética encantadora…

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