Peru de Natal

Já era quase onze e lá estávamos na porta da casa da Tia Quedinha. Era impossível não fitar o papelzinho de novena colado com durex na parte superior da porta, bem na grade do vitrozinho que, pelos parafusos que o sustentavam e pelas camadas de tinta acrílica, sabia-se que não mais podia ser aberto.

Já tínhamos a certeza que levaríamos um pito por ter chegado a “essa hora” ou “tão tarde”.

Não demorou para que viessem atender. Foi a Tia Dolores. Veio sorrindo. Mas que sorriso! Nem parece que está quase passando fome, com os dois filhos desempregados. O Natal é uma época especial mesmo!

Quando viram que chegamos, logo vieram o Tuca e o Dado para nos cumprimentar. Abraçaram-me primeiro, depois a Maria Clara e as crianças. Mas que hipócritas! Agiram como se o dia de me pagar ainda não tivesse chegado, ou melhor, como se não devessem dinheiro pra mim.

Logo veio a Tia Quedinha atrás. Estava tão entretida brigando com os filhos do Tércio que nem lembrou de falar do nosso atraso. Por falar em Tia Quedinha, pra quê tanta comida? Quem vê pensa que está nadando em dinheiro. Mal sabe que faz amassadinho de sabonete pra economizar.

Quando entramos na cozinha para ver o resto da tiarada, demos de cara com o Tio Gerônimo. Que pessoa! Esse aí merece o céu. Corno que só ele, e ainda assim dedica toda sua devoção à Tia Quedinha. Essa sim é uma sem-vergonha!

O clima esquentou quando entrou no aposento o Tio Otávio, suposto amante da Tia Quedinha. Por sorte as crianças já haviam saído; foram brincar com os filhos do Tércio de montar no Maguila. Coitado, quando as crianças se aproximavam já colocava o rabo entre as pernas.

Enfim, quando o Tio Otávio entrou, foi aquele silêncio constrangedor. Todos os presentes aproveitaram para dar um gole na latinha de cerveja, só para não ter que falar por algum instante. Quem fumava, aproveitou para dar um trago. Tiveram ainda aqueles que bebiam, tragavam e retornavam a outra golada, covardemente. Ah! Quão sortudos são os fumantes!

No fogão, e quase imperceptível, estava a Tia Quedinha acompanhando o assado. Mas que meio astuto de fugir do constrangimento por que todos os outros passavam. Somos pobres mortais quando não estamos cuidando do peru. Sim, ela estava no fogão. Tal artimanha só não é mais ardilosa do que o chuveiro. Neste sim, estamos completamente alheios ao mundo. É, de fato, a melhor desculpa. Não há telefonema que nos tire do banho, nem oficial de justiça cobrando pensão alimentícia pode interrompê-lo.

Nosso embaraço teve fim com o tocar da campainha. Quem diria, era o Maconha, namorado da Lucinha, filha do Tio Otávio e irmã do Tércio. Nunca gostei desse cara, mas nunca foi tão bem-vindo. Entre os mais chegados, passaria a ser chamado de Gongo, pois desta vez, ele realmente nos salvou.

O Maconha era do tipo alienado. Tinha o cabelo no ombro e cara de bunda. Na verdade nunca entendi porque que a Lucinha já não tinha dado um pé na sua cara. Cara de bunda. A Lucinha não era bonita como a Tiazinha, nem esperta como a Marlene Mattos. Na verdade, ela era inteligente como a Tiazinha e bonita como a Marlena Mattos. Mas mesmo assim, o Maconha não era páreo para ela. Dava até medo do que ele poderia ensinar para as crianças. Sei lá, com esse apelido…

Não preciso nem dizer que todos foram ao encontro do Maconha, fugindo da cozinha. Ele próprio não entendeu tamanho entusiasmo. Fui logo perguntando:

-E aí Paulo Henrique? Como estão as coisas lá na Bloquibúster?

Note-se que em nenhuma hipótese eu estaria interessado em como iriam as coisas na Bloquibúster. Aliás, foi assim mesmo que eu pronunciei. No que o desgraçado me respondeu:

-Muito corrido, ainda mais agora que começa a temporada de lançamentos.

E eu lá queria saber por que temporada a gente passava? Ta vendo? Agora vai aturar o idiota falando do emprego medíocre como se falasse de um negócio milionário que estava prestar a fazer.

-O Velozes e Furiosos tem saído muito…blá, blá…daí eu falei pro cliente que já era meia noite e um, e que não podia fazernada…blá, blá…

Cheguei a me questionar se a cozinha não estava melhor. Foi a Maria Clara que me chamou e me tirou de lá. Me levou pra ver como estava bonita a Marcinha, mais velha do Tércio.

A Marcinha era uma mocinha de seus treze anos. Era uma graça, só enchia o saco sua mania de falar todos os clichês novelísticos. Quando perguntei se tinha passado de ano, disse que sim, e que iria começar a oitava série. Poderia terminar por aí, mas emendou um “não é brinquedo não”, o que furtou-lhe toda a ternura.

O peru chegou junto com a Tia Quedinha. Ficou no centro da mesa. Todos fingindo que não estavam loucos para dar uma mordidanaquelas coxas. Nas do peru. Ao todo, éramos em vinte e três.

Quem cortou primeiro foi o Tio Otávio, o que deixou o Tio Gerônimo com um pouco de ciúme. Aposto que ele pensou que até nessas horas ele come antes. Digo isso porque todo o resto pensou.

A comida estava deliciosa, com exceção do salpicão na Neuza. Todo mundo pegava, e, quando sentia o gosto, tratava de engolir logo. Acho que o problema das cozinheiras ruins é que não têm paladar. Vai ver a Neuza não tinha paladar. O Tércio realmente nunca foi bom com as mulheres, e quando ganhava uma, nunca acertava. Lembro de quando íamos nas domingueiras do Cauntri Clube, sempre terminava ou sozinho ou com uma baranga. Casou com a melhorzinha que apareceu.

Na hora dos presentes, o Tércio surpreendeu, quando deu pra Marcinha um computador. Eles ficaram maravilhados, pois sabiam que ele era muito mão de vaca. Eu já esperava. Na verdade, tenho certeza de que comprou o computador para ter acesso à pornografia da internet. De tanto ouvir falar, deu um para filha de natal como pretexto. A Lucinha deu um carrinho de controle para o Maconha, que ficou feliz que nem criança. Logo botou as pilhas e ficava batendo nos pés da velharada. Estas fingiam achar engraçado, mas não perdiam a oportunidade de entortar a antenazinha do brinquedo. O tonto nem percebia.

Às duas e meia nos despedimos e fomos embora. Fomos os primeiros. Ao entrar no carro, comentei com a Maria Clara como tinha engordado a Tia Quedinha, estava quase igual à Tia Dolores. Falamos mais alguma coisa sobre o Maconha e começamos a prestar atenção no rádio, porque começou a tocar a Ave Maria.

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3 Comentários on "Peru de Natal"

  • Marcelo diz

    Texto engraçado.

  • Sérgio Carlos diz

    Fantástico. O autor é bom na comédia de situação.

  • Aline diz

    Nossa que texto bom!! Es rapaz é muito talentoso! parabéns!!!!

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