Sobrenome

O delegado estava pronto para iniciar o interrogatório. Pedro Alves, o acusado sentado à sua frente, tinha a cabeça baixa e olhar de quem já perdeu a esperança. Estava sendo indiciado por assalto a um supermercado.

A voz grave e estridente do delegado o despertou:

– Nome?
– Pedro Alvez Menesbaldo.
– Como?
– Pedro Alvez Menesbaldo.
– Menesbaldo?

O escrivão, que estava com pressa de terminar logo aquele interrogatório e ir ao shopping comprar o presente do dia dos namorados, olhou para o delegado sem entender o motivo de tanta pergunta. Imaginou que ele estivesse ficando surdo.

– Ele disse isso mesmo, Doutor Menesbaldo.

Só nesse momento, o próprio escrivão percebeu o que estava acontecendo. O acusado chamava-se Menesbaldo e o delegado também. Coincidência dois sujeitos com um nome esquisito daqueles. O Delegado estava abobalhado.

– O senhor não pode se chamar Menesbaldo.
– Não posso porquê?
– Porque Menesbaldo sou eu.
– Eu também.
– Não é possível. Não existe outro Menesbaldo. Só meu pai que já morreu.
– Olha aqui, eu não morri e me chamo Menesbaldo desde que nasci.
– Então você é meu parente.
– Talvez. O senhor conhece o Tio Aurélio?
– Não conheço nenhum Aurélio.
– E a Vó Gertudres, a Prima Berta, o Vô Mário?
– Meu Deus, não sei quem é ninguém.

O Escrivão, impaciente, interrompeu.

– Olha não quero atrapalhar, mas que tal se a gente passasse para outras perguntas? Já estamos aqui há 20 minutos e eu só coloquei o nome do Menesbaldo.
– Doutor Menesbaldo, disse o Delegado.
– Não, Doutor, estou falando dele, do outro Menesbaldo.
– E você acha que o Menesbaldo aqui não merece ser chamado de Doutor? Você lá sabe se ele é advogado ou até médico?
– Não, como eu ia saber, o senhor até agora só perguntou o nome dele. E também se eu chamar os dois de Doutor Menesbaldo vou acabar me confundindo.
– Pois você que se dane com a sua confusão, eu sei que eu sou eu e ele sabe que é ele. E eu faço que questão que ele seja chamado de Doutor.
– O senhor tem curso superior, Senhor Menesbaldo?
– Não, Doutor, eu não…
– Tá vendo, Doutor, é só Menesbaldo mesmo, deixa, fica mais fácil.
– Não deixo, vai ser Doutor e pronto, o fato de ele ter ou não curso superior não é relevante para investigação.

Pela Primeira Vez, Pedro Menesbaldo resolveu falar sem ser chamado.
– Olha, eu posso ser chamado de Pedro, ninguém me chama de Menesbaldo, só a minha mãe.
– Qual é o nome da sua mãe?- perguntou o delegado,

O escrivão revirou os olhos, incrédulo.

– Não é possível, Doutor, o senhor está se sentido bem? Para que saber o nome da mãe dele? Vamos logo com essa investigação.
– Olha aqui, eu estou identificando o acusado e você não se meta, está bom?

Pedro, que estava entendendo tanto quanto o escrivão, achou melhor responder logo.

– O nome da minha mãe é Ana Clara Martins.
– Não tem Menesbaldo?
– Não, o Menesbaldo é do meu pai, mas minha mãe não era casada com ela, sabe como é.

O Delegado pareceu pensativo, olhou para o teto, ignorou a impaciência do escrivão e continuou.

– Sua mãe é parecida com você?
– Não, eu acho que eu pareço com meu pai, que eu não conheci, minha mãe é loura de olhos azuis, magra, alta.
– Sei…

O escrivão teve vontade de pedir para ele descrever o cachorro, mas perdeu a coragem de fazer brincadeira diante da feição séria do delegado.

– Senhor Menesbaldo, olha aqui, o senhor está liberado.
– Sério?
– Sim, já tenho minhas conclusões.

O escrivão pensou que o Delegado tivesse pirado de vez.

– Doutor, o senhor tem certeza do que está fazendo? O interrogatório nem começou ainda.
– Pois para mim já acabou, e para você também. Você não estava com pressa? Pois vá logo para o seu shopping que eu tenho um assunto particular a tratar aqui com o acusado, ou melhor, com o Menesbaldo.

O escrivão se levantou, tão confuso quanto aliviado, e saiu da sala pensando que o Delegado devia sair mais, senão tirar umas férias. Depois da porta bater, o Delegado sorriu para Pedro que lhe sorriu de volta. E foi como se os dois estivessem diante de um espelho.

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5 Comentários on "Sobrenome"

  • Rafael diz

    Gisela,

    Que história! De onde saiu tudo isso? hehehehe

    Muito bacana. Parabéns!

  • Juliana K. diz

    Muito bom!!

  • Edinilson diz

    Como diria um velho fabricante de frases: “falou pouco, mas falou bonito!”

    Parabéns,

    Edinilson

  • Plínio Volponi diz

    Que final fantástico! Retrata bem como é o mundo atual…

    Muito boa! Continue escrevendo!

  • gisela diz

    obrigada a todos que escreveram. Abraços.

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