Adeus, Muchachos

Outro dia deu na TV: Argentinos fazem fila nos consulados para deixar o país. Minha primeira reação foi de preocupação, acompanhada por um certo pânico. Viriam eles para cá?, pensei.

Quer dizer, faz anos que eles estão reclamando dos imigrantes bolivianos, paraguaios, etc, que roubam os empregos dos cidadãos nativos e emporcalham as cidades se amontoando em barracos e pedindo esmolas. E os argentinos, tão patrióticos, agora aprontam essa. Realmente acreditei que eles estavam deixando sua terrinha e atravessando as fronteiras para o Chile, Uruguai, e, por que não, Brasil. Brasil! Foi esse meu medo.

Mas é óbvio que nossos vizinhos não iam querer ficar por aqui, entre os macaquitos. Tudo ficou muito evidente depois que avisaram que as filas eram nos consulados da Espanha e Itália. Pense bem: o problema não é que a Argentina foi pro buraco, que o peso idem e que a coca-cola custa sete dólares nos barzinhos. É que o país finalmente acertou o passo com o resto da América Latina. Agora, os argentinos moram em uma nação em crise. E crise, todo mundo sabe, é coisa de terceiro mundo (com o perdão da classificação). Não há patriotismo que agüente: apareceu até uma mulher dizendo que odeia a Argentina.

Imagina só se eles invadissem o Brasil. Pelo menos, conseguiríamos reforços para a Seleção Brasileira. Seria necessário também que se fizesse alguma coisa em relação à casa do presidente. Os EUA têm a casa branca. A Argentina fez a rosada. Por que o Brasil não tem uma casa amarela, ou verde? A última famosa foi a da Dinda, que não é colorida, e nem sei se nosso presidente mora mesmo lá. Com os argentinos entre nós, poderíamos adotar também o saudável hábito de viajar em todas as férias, mesmo não tendo dinheiro. Depois a gente cobriria o rombo com patacones.

Indo para a Europa, eles não vão precisar reformar nada. Vão se sentir em casa, afinal, já faz mais de século que estão tentando implementar o antigo continente no meio das repúblicas da banana. Estarão livre dos bárbaros, sem nem precisar construir o tal do muro nas fronteiras da prata. Comenta-se que os portenhos estão concentrados mesmo é na porta do consulado da França. Parece que os habitantes de Buenos Aires têm muito em comum com os parisienses, especialmente na amistosidade, boa educação e finesse do tratamento. Vão poder comprar um Big Mac por cinco euros, pra acompanhar aquela coca-cola. Só não vão poder falar espanhol, mas em compensação o inglês estará a um túnel de distância. Já tem gente se imaginando Sir Hernandéz.

Com toda essa mania de europeu, eu não consigo me convencer de que a Argentina possui uma identidade verdadeiramente nacional, apesar de reconhecer o tango como legítimo. Tiro o chapéu para a instrução e participação politíca da população, só que o orgulho do povo parece estar calcado em uma imitação barata do velho mundo. Mas uma crise desse tamanho ajuda. Quem ficar, vai descobrir que a Argentina está mais para Brasil que para Inglaterra, e que é mais seguro ser um pé-rapado autêntico que um lorde remendado.

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2 Comentários on "Adeus, Muchachos"

  • Fabiane Secches diz

    Gostei muito do texto, apesar de tê-lo achado um pouco radical. Às vezes é um recurso até literário, e precisamos ser um pouco extremistas para passar a nossa mensagem com força. Está bem escrito e bem fundamentado, parabéns. Você conseguiu dar a um assunto um pouco “manjado” (por estar em todos os noticiários), ares coloridos e novos.

  • RAFAEL diz

    Não quero tripudiar mas eles estão onde sempre pensaram estar …. o que quer que isso queira dizer

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