Os e-mails mais bizarros do planeta

Nesta semana me ocorreu um fato inédito, uma verdadeira iluminação. Após receber um e-mail que dizia que Roberto Marinho havia morrido, eu pensei: será que alguém ganha dinheiro para fazer isso? Ou é, simplesmente, falta do que fazer?

Meus questionamentos sobre esses tipos de mensagens escabrosas já existem há algum tempo. Elas começaram com aqueles e-mails dizendo que o desenho “Meninos da Caverna do Dragão”, na verdade, era uma alusão ao purgatório e ao inferno. Depois elas foram aumentando com estórias defendendo que a Turma da Mônica era uma alusão descarada às drogas. Cebolinha era a maconha, Franjinha era o químico, Magali era a larica… e por aí vai. Outro dia mesmo eu li na minha caixa de entrada que o Mickey é um instrumento a serviço do imperialismo americano, assim como o McDonalds. Os questionamentos pioraram ainda mais quando mandaram e-mails difamando a Vovó Mafalda, acusando a coitada de ser homem. Vê se pode uma coisa dessas!

Bem, tudo isso não importa. Não sei se esses fatos são verídicos ou aceitáveis. Não sei se o Ronald trabalha para a CIA ou se o Mestre dos Magos era o Vingador. O fato é que estão tentando destruir meus valores infantis. Meus ídolos e sonhos de criança estão indo pro saco. E o que eu menos quero é que a última porção virgem e alienada da minha imaginação seja violada.

Baseado nessas calúnias, resolvi tentar elaborar eu mesmo uma mentira eletrônica. Só para experimentar. Só para ter uma idéia de como é ser chato-por-um-dia.

Minha estória se inicia há alguns anos no passado, em um episódio futurístico e distante da trilogia “Guerra nas estrelas”, de George Lucas. Perdoem-me aqueles que não conhecem esse filme. Mas os sabres de luz até hoje vivem guerreando dentro de minha imaginação. Meu foco central é o episódio II – “O Império contra-ataca” – um dos filmes mais tristes que minha infância já assistiu.

O tal episódio é triste não só pelo contundente avanço das forças do mal. Também me desapontou porque o grande Han Solo foi congelado. Mas, a despeito desses toques dramáticos, o filme não seria tão triste para mim se não houvesse um pequeno detalhe: Luke Skywalker perde sua mão em uma batalha épica com Darth Vader. Não, não, não, não! Mil vezes não! Poderia acontecer de tudo no filme. Meu herói poderia até morrer. Mas ELE FICOU MANETA! Eu não pude acreditar quando vi o sabre vermelho do vilão decepando a mão de meu herói. Agora, MEU HERÓI ERA UM MANETA. O JEDI ERA MANETA.

Isso coloca um elemento importantíssimo para que uma calúnia seja espalhada: a motivação. Agora eu tenho um motivo para tentar difamar Hollywood: eles deixaram meu herói maneta. Como ele poderá lutar contra as forças do mal?

Ainda bem que eu não assisti ao filme quando era adolescente. Minhas preocupações poderiam ser outras. Certamente teria questionamentos do tipo: como será que ele faz para ver uma playboy? E quando ele mija? Ele só pode andar de mãos dadas de um lado, né? E para dirigir?

Será que é assim mesmo que nasce um e-mail idiota? Se for assim eu não sei, mas vou tentando. Agora, basta juntar alguns detalhes picantes, fugir dos lugares comuns, e pronto: tenho uma calúnia completa! Mas como poderia relacionar um jedi maneta, uma mão sem dono e Hollywood em uma única calúnia e, além de tudo, ser original?
Demorou para eu pensar alguma coisa. Ironicamente, a resposta chegou meio maneta e acabou caindo como uma luva. Estava óbvio o tempo todo, porém as paixões de criança cegaram meu entendimento. Foi assistindo ao filme “A Família Adams” que tudo ficou claro. Meu herói, apesar de maneta, era o cara mais altruísta do mundo (E aqui a ficção se mistura à realidade reiniciando a minha calúnia).

Ao saber que Hollywwod planejava fazer um remake da velha história do clã mais assustador do cinema, ele decidiu oferecer sua mão para o papel de mãozinha. Mas as divergências publicitárias entre as produtoras dos filmes impediam meu herói de interpretar dois papéis simultaneamente. E Luke é tão generoso e inteligente que achou uma saída sensacional para problema: no filme StarWars, ele teria sua mão amputada por Darth Vader. Na seqüência, ela seria levada para o set de gravações de “A Família Adams”.

Foi assim que nasceu uma das celebridades mais aplaudidas de toda história do cinema. Pena que ela mesma não possa aplaudir ninguém. Mas quem ela iria aplaudir? A estrela mais próxima de seu nível estava a palmos e palmos de distância.

Depois foi um sucesso atrás do outro. O principal deles foi o incontestável “A mão que balança o berço”. O Oscar lhe escapou por entre os dedos. Perdeu para um outro filme de muito tato: “Rocky XXVI, a ressurreição de Balboa”.
Foi do nobre gesto de Luke Skywalker que nasceu a expressão “você pode me dar uma mãozinha aqui?”. O gesto do Jedi foi tão marcante para sua carreira que ele até abandonou o cinema. Apenas cumpriu o contrato e terminou sua carreira estrelando “O Retorno do Jedi – versão sem cortes”. Dizem as más línguas que ele não conseguiu mais nenhum contrato porque não tinha como assiná-los. Talvez seja verdade.

De qualquer forma, Mãozinha viveu uma vida intensa. Deixou sua impressão digital na Calçada da Fama. Apesar de levar muitos tapas, o apogeu foi atingido com uma Palma de Ouro em Cannes pelo clássico “Eduard Mãos de tesoura”, no qual Mãozinha interpretou uma habilidosa mão em forma de tesoura. O mais difícil desse trabalho, segundo mãozinha, foi fazer o papel tanto de mão esquerda como de mão direita. A produção precisou usar avançadas técnicas de efeitos especiais. Foi justamente durante as gravações de “Eduard Mãos de Tesoura” que Mano (apelido íntimo de Mãozinha) conheceu Johnny Depp. Daí em diante sua vida foi uma perdição total. Eram como carne e unha. Cheiravam juntos todos os esmaltes de Beverly Hills. Viviam organizando festas de arromba e campeonatos de peteleco (um hobby que mãozinha jamais abandonou). A vida devassa acabou transformando aquela mão de sucesso em apenas mais uma carreira promissora que acabou fracassando. Um dedo-duro e uma palma amarela delataram aquilo que todos já desconfiavam: sua vida era uma grande podridão. Todos se afastaram de Mãozinha. Nem mesmo a sorte acenou para aquela pobre mão.

Mãozinha ficou na mão. Sem amigos e sem dinheiro, ele foi trabalhar como dublê. Acabou falecendo durante as gravações de Robocop I. Isso mesmo. Ela era a mão dublê da mão do policial Murphy. Isso mesmo, de novo! Ele era aquela mão que foi estourada com um tiro de uma espingarda.

Termina aqui uma das calúnias mais viajantes de toda história. Espalhem esse e-mail para mais 7 pessoas. Se as 7 repassarem o e-mail você será amigo(a) de alguém famoso: eu! Se você não repassar o e-mail, você sofrerá da maldição do Jedi: sua mão será mais famosa do que você.

E não se esqueçam: jamais deixem morrer as fantasias alienantes que os outros tentam passar para você. O mundo precisa continuar sendo esse esdrúxulo conto-de-fadas que todos nós engolimos diariamente.

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5 Comentários on "Os e-mails mais bizarros do planeta"

  • Fabiane Secches diz

    Trocadilhos inteligentes. E gostei do trecho: “O fato é que estão tentando destruir meus valores infantis. Meus ídolos e sonhos de criança estão indo pro saco. E o que eu menos quero é que a última porção virgem e alienada da minha imaginação seja violada.”

  • Felipe diz

    Puxa, este boato sobre a turma da Mônica é horrível! Nunca havia lido esta atrocidade! Para mim isso é sinal de mente desocupada!

  • Thais diz

    Mas a Vovó mafalda era homem mesmo!

  • Danuta diz

    Vc conseguiu transformar uma conversa numa história bem legal! Parabéns, muito engraçada:)

  • Parabéns! Muito bem escrito e muito engraçado!

    Não só o artigo como o site todo. Já tá no bookmarks.

    Um abraço, Vini De Lucca – Floripa

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