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Os patriotas - (04-07-2002) - por Marcelo Torres -Acorda, Fernando. Você não é patriota, não? Ele é ‘patriota’, sim, e como todo brasileiro que se preza, levantou-se e prostrou-se diante da televisão, junto com a família, torcendo pela seleção brasileira. Não, ele não é o Fernando I, nem o Fernando II, nem Fernandinho Beira-Mar. É um Fernando anônimo, um brasileiro qualquer, como um José, João, Francisco, Luís. De quatro em quatro, o civismo toma conta do País. Desfralda-se o auriverde pendão da esperança, o lábaro estrelado que a brisa do mar beija e balança. O Brasil se levanta do berço esplêndido. Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve a seleção! Ó pátria amada, mãe gentil, tão traída, distraída e subtraída. Uma pátria de chuteiras. E um jogo desigual: milhares, milhões de fernandos de pés descalços, desnutridos, descamisados – entre lixões e arquibancadas; outros fernandinhos bem vestidos, bem nutridos, calçados, abastados – entre carrões e uísques importados. No jogo, parece que o que está em disputa é a honra nacional. A derrota transforma ídolos em vilões, heróis em mercenários. E Fernando descobre que não somos 160 milhões de versados em futebol, mas 159.999.999, pois Cândida, sua irmã mais nova, quer saber o que é escanteio, para que serve o cartão amarelo, quando é tiro-de-meta – essas palavras e expressões típicas do jargão futebolístico. E o tempo passa, o tempo voa – mas o Brasil não está numa boa. O jogo vai chegando ao fim e a seleção está amargando um empate, uma derrota. De repente, no último minuto, no último giro do ponteiro, o juiz resolve dar uma mãozinha ao Brasil e inventa um pênalti para a nossa seleção. - Mas… o que é pênalti, mesmo, Fernando?!? – indaga Cândida, ingenuamente curiosa e impertinente, sem entender o porquê de toda aquela alegria e vibração. - É meio gol – responde Fernando, tentando ser prático e objetivo, com os olhos concentrados na tela do televisor. Cândida continua sem entender. Lança um olhar de busca, mas os outros patriotas estão com os olhos voltados para a cobrança do pênalti. Todo mundo esperando pela definição do lance: o nosso atacante contra o goleiro deles. Tensão, expectativa, ansiedade e… gooooolll… do Brasil! Todos pulam e se abraçam. - Então, Fernando, agora estamos ganhando de “meio a zero”? – indaga a mana inocente. Risos e risos. - Ô, querida, digamos que ‘meio gol’ seja uma licença poética, ou melhor, uma licença esportiva. |
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Fabiane Secches - fsecches@hotmail.com 20-07-2002 08:53
Gostei bastante também deste texto seu. É impressionante quantos novos talentos existem e que merecem encontrar seu espaço. Vc é um deles! |