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SaÃda de Mestre - (02-07-2002) - por Marcelo Torres Uma dúvida quase que shakespeariana, uma questão gramatical a mobilizar uma cidade inteira. Tudo, tudo, tudo por causa de uma bendita frase, aliás, de uma letra e um acento a mais. Ou a menos, conforme a opinião de uns e de outros. A norma culta da lÃngua entrou na pauta das rodas de conversas depois que Telmo colocou na platibanda de sua casa uma faixa com um aviso inusitado: “VILA NÃO ESTAR” [sic]. Naqueles dias, ao invés dos célebres “ser ou estar” e “ser ou não ser”, a dúvida era “está” ou “estar”. It’s the question. - Qual é o certo, ‘estar’ ou ‘está’? - indagou Telmo ao professor Alceu. - Depende do tempo e do modo verbal - respondeu Alceu, de modo professoral. William Telmo, quase xará do dramaturgo inglês, petroleiro aposentado, é uma pessoa de prosa fácil, mas criador de discussões que redundam em polêmicas intermináveis. E Alceu é a enciclopédia do lugar: intelectual, professor, um homem que cultua as letras em versos e prosa. Dois sujeitos polêmicos por natureza, pessoas que não levam dúvidas (sérias nem prosaicas) para casa. Vila é o apelido de Vilemar Fraga dos Reis, o mestre-de-obras mais procurado do lugar, e que tinha sido contratado por Telmo para realizar uns serviços em sua casa, um belo sobrado na praça principal. Ao constatar que a todo instante alguém batia à porta da sua casa procurando pelo mestre, que assim interrompia o serviço para falar com os prováveis clientes, o polêmico aposentado resolveu pregar aquele aviso aos navegantes, aliás, aos passantes. Com o aviso, ninguém mais bateu à porta do aposentado. Mas a frase - de boca em boca - virou motivo de chacota pública. Conhecesse ou não a norma culta da lÃngua, qualquer pessoa se viu no direito de opinar - sempre contra o aposentado. Pelo telefone, os trotes se multiplicaram: “Vila já chegou?”, perguntou um. Dois minutos depois: “É da casa de Vila?”… Mais tarde: “Vila está?”. O vizinho Patativa Salazar, que nunca alisou banco escolar, também meteu seu bedelho - tal qual um filósofo: “O certo é certo. O errado é errado. Se tá, tá. Se não tá, não tá”. Nas ondas da rádio comunitária, um folclórico apresentador caçoava: “Tira esse aviso medonho daÃ, home!” O vereador Jorge Muriçoca, que não perde uma oportunidade de brigar com o aposentado, aventou a possibilidade de levar o assunto para a Câmara - mas foi desestimulado pelo prefeito Belarmino, que apesar de não entender de gramática, disse que a frase estava certa, certÃssima. Afinal, Telmo é seu eleitor - e ponto final. E Telmo deixou Vila sozinho na obra. Foi tomar uma gelada na barraca de Luiz, na praça, onde encontrou o professor. - É o seguinte: o ‘estar’ está no infinitivo e o ‘está’ está no indicativo… - Ih, professor, agora complicou tudo! “O ‘está’ está no…”!!! - Entenda, meu caro: ‘Estar’ é a forma nominal do verbo estar no infinitivo. ‘Está’ é o verbo estar conjugado na terceira pessoa do singular, no tempo presente, no modo indicativo. Ou seja, ‘estar’ está no infinitivo e ‘está’ está no presente do indicativo… E antes que o agora atônito aposentado dissesse que não havia entendido nada, Vila chegou para solucionar a querela gramatical. E com um sorriso sóbrio de alÃvio e satisfação, o mestre-de-obras jogou uma penca de chaves na mão de Telmo e anunciou: - Pronto, o serviço está concluÃdo. Aproveitei e tirei a faixa. Vila parecia livrar-se de um fardo pesado sobre os ombros e a consciência, parecia comemorar o fim de uma novela. Foi mesmo uma saÃda (ou uma chegada) de mestre. - Agora diga que ‘Vila não está’! - brincou o professor. - Olha ele aÃ! - Deixa para lá - sorriu Telmo. - E vamos tomar uma cervejinha. |
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Fabiane Secches - fsecches@hotmail.com 12-07-2002 11:44
Gostei bastante do texto. Entrelinhas e reflexões interessantes, trazidas de maneira leve e divertida. |
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Rafael - rafael@wg.com.br 19-07-2002 12:29
Parabéns Marcelo, já pode tentar largar o banco e ir em frente com sua profissão. Muito bom o Texto. |