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Gafes no Planalto - (24-08-2002) - por Marcelo Torres

Este nômade trocou a quinhentista Salvador pela Brasília quarentona e futurista, uma ilha sem turistas, mas onde todos os gastos são pardos - de dia ou à noite. Na capital federal, “pardais” são os “chupa-cabras”, os postes que fiscalizam o trânsito, cuja velocidade máxima é de 60 km/h.

Apesar de uns filhinhos de papai terem queimado um índio aqui - mais um nos anais da impunidade -, na cidade de Brasília todo motorista pára o carro para o pedestre passar. Você põe o dedão do pé na pista e… stop!… pára o motorista.

Pois é, se no trânsito é toda essa civilidade, no elevador ninguém (nem deputado, nem pé-rapado) tem o hábito de dar “boa-noite” ou “bom dia” - tenha ou não tenha mau hálito. Pior: eles também não respondem quando é você que toma a iniciativa.

Sou tabaréu do interior, de onde trago a mania besta de cumprimentar as pessoas a qualquer hora da noite ou do dia. E se na Bahia eu era um cara esquecidiço e desligado, aqui, logo no primeiro dia, peguei um elevador errado (e era justamente o privativo!).

Sou mesmo um azarado, me bati logo com um mangangão (vi que era uma “otoridade”, não pelos seus dois metros de altura, mas pela tintura do sapato e pelo paletozão que o sujeito usava). Ele vinha sozinho, lá no fundo, e eu entrei de fininho, disse “bom dia” com a cara mais lisa deste mundo.

Para meu espanto e perplexidade, o doutor-deputado ficou também de canto, mas respondeu bem educado: “Como vai? Tudo bem?”. Também, pudera!, estamos em período eleitoral… Mas o que importa é que eu, um zé-ninguém, um pé-rapado e cara-de-pau, me senti um ministro de Estado ou o Presidente do Congresso Nacional.

Mais tarde, na hora do almoço, nova gafe - em outro elevador. Vi um antigo colega de Salvador, e perguntei pelo pai dele (meu ex-professor na faculdade). Ele falou, cheio de formalidade:

-Meu pai morreu há seis anos.

Fiquei sem cor, engoli a saliva, procurei um buraco para enfiar a minha cara, um rabo-de-foguete para subir e sumir para todo o sempre. Para tudo, porém, dá-se um jeito, eu pensei. Então, levantei os ombros, estufei o peito e tentei uma emenda ao soneto:

- Morreu para você, que é um filho ingrato. Para mim, ele continua vivinho da silva.

O elevador explodiu em gargalhada. Ele fez cara enfezada, cara de poucos amigos. E com essa graça, logo na chegada, tive a certeza de que ganhei o primeiro inimigo na praça.



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:: recomende :: comente este texto (4) ::
José Pedreira - ticocruz@bol.com.br • 02-09-2002 05:48

Ôi Marcelo.

Voce está ficando cada dia melhor. Está se soltando mais na “cata” de assuntos de bom gosto.

Parabéns

Tico

Luiz Eudes Cruz Andrade - luizecruz@ig.com.br • 12-09-2002 05:31

Marceleza querido,

Voce está com tudo e não tá prosa heim cara!

Torço por voce, sabe disso!

Abraços

Leca

Andrea Cristiana - andrea.csantos • 22-09-2002 12:48

Marcelo, tudo bem?

Que bom reencontrá-lo! O prazer foi ainda maior ao ler esse texto gostoso. Me envie uma mensagem, porque perdi seu e-mail e quero retomar o contato.

Abraços e sucesso,

Andréa Cristiana, de Salvador.

Marcelo - josemarcelotorres@bol.com.br • 24-09-2002 04:11

Andréa,

vc n colocou o e-mail, não tive como retornar.

escreva para josemarcelotorres@bol.com.br ou para marcelotorres@bb.com.br.

bjs

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