Uma Gelada, por favor

Todos os amigos concordavam que o Caneco era o melhor copo da região. Daí o apelido. Para o Caneco, não tinha desafio: se tivesse álcool, ele topava. Mas, pessoalmente, achava que nada se comparava a uma boa cerveja. A cor, a espuma, o aroma, o sabor, as bolinhas, ah!, as bolinhas! Todo dia, deixava o escritório e religiosamente dava uma esticada no bar do Carlão para matar a sede. Sempre na cerveja.

– Estupidamente gelada!

Encontrava o pessoal, falavam muito sobre um pouco de tudo, e bebiam até cair. Na sexta em que entrou aquele mulherão no bar, o pessoal da mesa do Caneco dedicou uma rodada em homenagem à moça. Mas o Caneco não abriu mais a boca a noite inteira. Ficou só olhando, hipnotizado. Ninguém reparou, e se reparassem não iam dar bola. Conheciam o Caneco. Não era de ficar correndo atrás de rabo de saia.

O Caneco já estava chegando na casa dos quarenta, e ainda era solteiro. Dizia que nunca ia trocar a vida boêmia com os amigos, a cervejinha de cada dia, para ter que ir para casa encontrar a janta na mesa. A verdade é que nunca dera muita sorte com as mulheres. Ainda mais agora. Depois de quase duas décadas de cerveja, o Caneco já virara Barril, e a barriguinha não ajudava muito na hora da abordagem. Mas aquela noite mexeu com ele.

Passou a semana seguinte inteira meio caladão, e a turma começou a estranhar a quietude do amigo tradicionalmente tagarela. Só na sexta-feira é que ele voltou ao normal, depois de sentar na mesa e ver que a mulher da semana anterior estava encostada no bar, acompanhando uma amiga. Achou uma coisa esquisita: na frente dela, um copo e uma garrafa de água tônica. Mesmo assim ficou contente de rever quem lhe tirara o sono por uma semana. Era loira, magra, cabelos longos, uma pele muito clara, aparentava uns vinte e tantos. Comentou com os amigos.

O Caneco estava encantado. Não parou de falar na moça o tempo todo. Aqueles cabelos amarelos, o pescoço branco que ele insistia em chamar de colarinho, a silhueta que lhe lembrava a beleza das curvas de um copo. Era a mulher por quem procurara a vida inteira. Bastante encorpada.

– Só faltava estar coberta de gotinhas!

Decidiu que ia falar com ela. Os amigos acharam graça, e, como todos bons amigos, tiraram um grande sarro da cara dele. Nada disso abalou a determinação do Caneco. Tá certo que ele estava um pouco barrigudo e os fios que ainda não haviam caído já davam sinal de desbotamento, mas se caprichasse na conversa ainda tinha alguma chance. Foi.

Esperou a amiga se afastar e chegou meio sem jeito, e o primeiro contato foi um pouco difícil. Pelo menos descobriu logo seu nome: Fernanda. Descobriu também que ela odiava bebidas e que seu bafo de álcool não estava fazendo muito sucesso. Sentiu a frieza com que ela cortava suas tentativas de iniciar um diálogo, e isso lhe deu calafrios de felicidade. Era estupidamente gelada.

Desse dia em diante, Caneco não pôs mais um pingo de cerveja ou qualquer outra coisa na boca. Sua turma estava chocada, mas o Caneco estava decidido a conquistar a Fernanda. Valeu a pena. Depois de muito esforço e algumas semanas, já estavam íntimos, e ela já estava bem mais receptiva. Começaram a sair. Os amigos tentavam se conformar.

– Trocou uma loira por outra, ué.

O papo do Caneco não era lá essas coisas, mas algo de bom devia ter, porque a Fernanda logo estava completamente apaixonada por ele. O relacionamento do dois foi esquentando, e finalmente ele convidou a garota para o seu apartamento, “tomar um cafezinho”.

No dia seguinte, chegou no bar meio abatido. Os amigos só perguntaram o que ele tinha quando o Caneco quebrou o jejum de um mês e pediu uma cerveja para o garçom.

– Acabou tudo.

Contou a história, e disse que fora enganado. A Fernada tinha ficado quente demais. E o pior de tudo, segundo confidenciou com uma certa melancolia, desiludido:

– Era tingida.

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5 Comentários on "Uma Gelada, por favor"

  • Fabiane Secches diz

    Ótimo. Bem construído, com boas idéias e ritmo acertado. Gostei.

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Fico triste ao saber que o Caneco se deu mal, ou não.

  • Pedro Coelho diz

    Vai por mim: o Caneco viveu feliz para sempre, ou não.

  • Sérgio diz

    Loira estupidamente gelada (adorei a metáfota)não era para o Caneco. Acho que ele deveria tentar uma Xingú, Maltzbier…

    Muito bom, mas por que o Caneco só descobriu que ela era tingida depois de um mês?

  • Pedro diz

    Serjão, parece que o Caneco demorou para chegar nos finalmentes…

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