Apenas um Café

Dia normal, um pouco de aporrinhação de manhã, um almoço corrido e um café antes de voltar ao serviço. Para os que não sabem (provavelmente a grande maioria) tenho uma pequena tara por cafés, principalmente os expressos, com canela (vulgarmente conhecido como canelinha) e os cappucinos. Gosto também dos cafés alcoólicos, mas estes pertencem a uma outra tara que tenho, a dos drinks.

Mas retomando o foco desta crônica, tudo aconteceu quando resolvi pedir o meu expresso. Optei pelo canelinha, que é o café expresso padrão, com uma pequena parte de espuma de leite e canela. Estava em uma coffe-shop localizada no Goiânia Shopping, que além de servir café, possui alguns sanduíches diferenciados e provê acesso a internet. Acredito que por causa deste último fator, tenham escolhido o nome de “Café On-Line”. Cafeteria simples, mas agradável. Possui uma linda vista do lago do parque Vaca Brava e pequenas mesas redondas com cadeiras confortáveis para se tomar um café rápido. O canelinha eu classificaria como discreto. Não chama atenção nem pelo excesso nem pela falta de qualidade.

Fui diretamente à atendente do caixa e pedi o café. Tirei uma das araras em extinção da minha carteira e entreguei-a junto a uma moeda de R$0,10 para que o troco fosse facilitado. Como esperado, a atendente informou-me que não tinha troco em notas e entregou-me um bom tanto de moedas, que sempre se perdem ou acabam indo para a mão dos vigias de carro. A segunda atendente, responsável por tirar o expresso, olhou então para o meu rosto, fixou bem os meus olhos e pensou (é, em algumas situações eu consigo ler os pensamentos), “não acredito que este moleque otário vai me fazer levantar da cadeira para tirar um expresso para ele”. E lentamente levantou aquele enorme corpo da cadeira e foi se dirigindo a máquina de café. Cada passo tinha o impacto de uma bala de canhão, afundando o chão por onde passava. As flores que estavam ao redor funcionando como decoração imediatamente começaram a murchar e os grãos de café vendidos a granel, começaram a se esfarinhar. Neste momento, num lapso de consciência auto-defensiva, imaginei que seria prudente afastar-me e esperar pelo café longe do alcance da visão da sutil atendente.

Sentado então ao fundo da cafeteria, vislumbrando a já citada visão do lago, começou a incomodar-me a demora do canelinha, mas prudentemente, resolvi não questionar, afinal de contas, ainda tinha alguns minutos a gastar. Após se= passarem todos os minutos disponíveis, assustei-me com um grito estridente, com volume e gravidade quase suficientes para trincar os vidros do shopping: “CANELINHA !!!”, e após o grito, o barulho de um pírex com uma xícara atirados contra o balcão. Notei que meu pedido havia ficado pronto e aproximei-me para que pudesse buscar o tão esperado café.

Já sentado a mesa, trouxe a xícara para próximo do nariz em busca de qualquer vestígio de cianureto, ou mesmo cloridrato de potássio que pudesse me impedir de estar relatando este acontecimento. Como não notei nada de diferente, olhei profundamente para o lago por alguns instantes, fechei os olhos e aproximei a xícara da boca, sentindo um misto de desespero e pânico.

Após alguns instantes de silêncio sepulcral, tomei coragem de formular um pensamento qualquer e abrir os olhos. Neste momento, as sensações de alívio, felicidade e satisfação tomaram conta de mim ao ver novamente a imagem do lago com seus cisnes e pedalinhos. Nunca poderia imaginar que uma cena tão corriqueira me pudesse trazer tanta felicidade. Tomei o restante do café e me levantei, disposto a pedir a restituição da parte dos R$ 1,10 que se referem ao atendimento prestado. Subitamente mudei de idéia, quando descobri que a primeira atendente havia saído, e que no caixa, estava agora a segunda atendente, responsável pelo meu martírio durante tão esperada “hora do café” após o almoço.

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