Não Adianta Chorar a Vodka Derramada

“E a rave? Nossa, não creditei quando você me falou aquilo, ontem à noite.” Ótimo, mais uma vez estava ela completamente embaraçada por causa da maldita vodka.

O rock não estava começando bem. Antes, por causa daquele constrangimento inicial normal de duas pessoas que não se conhecem direito, mas a situação estava começando a ficar difícil. O contexto era perfeito. O bar era muito legal e lá estavam os músicos conhecidos dela mandando um jazz de primeira: um ambiente ideal prá conversar e curtir com o cara com quem tinha ficado na noite anterior. Mas o problema é que ele não desenvolvia, ou eles. Ficaram naquele sem-gracismo por muito mais tempo do que deveriam, ela viajando no som e ele tentando disfarçar enquanto bebericava sua smirnoff ice. Quando falavam alguma coisa, discordavam; eram completamente diferentes. No meio dessa tensão toda, ele soltou a pérola sobre a rave.

Não podia ser pior: ela não fazia a menor idéia do que havia dito na noite anterior sobre raves ou sobre coisa alguma. Aquela sexta tinha sido um desses dias que se tiram para diversão, não importa onde, nem com quem, nem como, quando parece (com a verdade do clichê) que o peso do mundo saiu de suas costas. Ela tinha ido parar naquela boate e desde os primeiros minutos abusara propositalmente de hi-fis, cubas e tudo mais que levasse uma dose generosa de vodka. E divertiu-se, horrores, da metade pro fim da noite com aquele rapaz empetecado e sem assunto que agora sentava-se a sua frente.

Ele usava camisa pólo prá dentro da calça, não entendia nada da música que estava tocando, só sabia falar sobre a faculdade e ainda por cima ria calorosamente a cada cinco palavras que ela dizia. Ah, a bebida. Na noite anterior achara que ele tinha senso de humor. O bar estava cheio e ela estava achando muito mais interessante prestar atenção nas outras pessoas, todas sentadas muito próximas, conversando animadamente, enquanto olhava pro baixista do trio de jazz; esse sim devia ser uma pessoa legal.

O assunto da rave não durou mais que três minutos e nem nenhum outro assunto durou também. O tempo arrastava-se, obviamente. Meia noite. Como ela gostaria que o mundo fosse simples. Que pudesse dizer somente “desculpe, foi um equívoco, vá embora e me deixe aqui no balcão, que mais tarde vou oferecer um drink para o cara do baixo” e ele, aliviado e agradecido, fosse. Mas, ao invés disso, ela aceitou o convite para dar uma volta por outros bares da cidade. Ah, a educação. E um pouco de esperança, também, vai que o cara se revelava uma companhia ao menos agradável.

No carro, a situação, embora ainda deprimente, era mais confortável. O silêncio era preenchido pelo som do rádio e, quando sentiam necessidade de falar alguma coisa, faziam comentários dispensáveis sobre os bares pelos quais passavam e estavam, todos, cheios demais. Enfim, sentaram em um bar neutro, que os dois gostavam e que não significava nada em particular. Ela sentia que estava sendo fria com ele. Ele tentava abraçá-la ou demonstrar carinho de qualquer outra maneira e ela não suportava nem ao menos dar a mão ao rapaz.

E como sempre, tudo o que pode ficar pior uma hora fica. Agora não havia mais a música para distraí-la e ainda por cima a mesa era num canto insuportavelmente quente do bar. E tome cerveja. Falaram mais sobre a faculdade, sobre trabalho, sobre professores, enfim, sobre toda a sorte de temas tediosos. E mesmo quando surgia algum tópico mais animador, o moço certinho de aparelho nos dentes fazia tudo ficar chato, chatíssimo. Ele também parecia se incomodar com aquilo tudo, mas enquanto ela queria sua cama e seu travesseiro, ele parecia querer esticar a noite o mais que pudesse. Até que chegaram ao fundo do poço: ele tinha sido colega de sala no inglês de um ex-namorado de adolescência dela e começou a falar animadamente sobre a amizade deles e seus amigos da época – alguns conhecidos dela. Não era possível. Em seu desespero por manter um diálogo com a menina bonitinha que ele conhecera ele apelava para qualquer coisa. Ela não acreditava que ele não estivesse notando seu desânimo.

Depois de listar todos os colegas da época, alguns que ela não fazia a mínima idéia de quem fossem, outros que tinha visto uma ou duas vezes na vida, ele animadamente, assinou sua sentença de morte: “nossa, quanta coisa nós temos em comum”. Achando meio indelicado de sua parte – mas, depois disso, absolutamente inevitável – ela alegou sono e propôs irem embora. Ele, parecendo completamente sincero pela primeira vez na noite, concordou.

Ela acreditava que ele não a procuraria mais, que havia ficado claríssimo que não havia jogo para os dois. Mas para sua surpresa, domingo à noite toca o celular. Ela olhou o visor e agradeceu às forças superiores: viva o identificador de chamadas.

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2 Comentários on "Não Adianta Chorar a Vodka Derramada"

  • Jacaré diz

    Ela atendeu o celular ou não?

  • Carol diz

    Ela não atendeu, pq ele não fazia o tipo dela ¬¬

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