O Grande Papo

A manhã parecia nunca ter fim. O calor era intenso e eu meio abestalhado ao ver tanta gente, deveria ser o centésimo octogésimo nono da fila de votação; esperando, olhando para um lado, para o outro; ouvindo um papo-furado aqui, outro ali; um empurrão prá cá, outro prá lá e a paciência se esgotando, calejando, e o tal do saco se enchendo, se enchendo de tanta asneira que não se podia deixar de ouvir.

– Essa fila acaba com a gente, – falei isso com o vizinho que estava na minha frente, na tentativa de melhorar o astral e com isso, iniciarmos um bate papo. O sujeito aparentava um indivíduo relacionável, bem vestido e dono de um comportamento cheio de curtas cordialidades, tais como: me desculpe, por favor, não foi nada, a vontade, tudo bem, et cétera, et cétera e tal e tal . Isso me chamou a atenção.

– Nóis tem cara de boi qui vai morrer – foi o que ele respondeu com relação a minha interpelação sobre a fila. Então percebi que eu estava na frente de mais um dos nossos Silvas. Pessoa astuta, simples, cordial e igual a nós mesmos: na fala, no costume e no voto. Até aí tudo bem. A coisa que nele mais me intrigou foi sua aparência: uma mistura de japonês com nordestino. Um caboclo diferente.

Quando ele falou aquela frase sobre o boi, vi que não se tratava de um simples poeta, nem filósofo, mas de um cara bom de se ouvir. Eu tinha a obrigação de estender aquela conversa para dar fim ao marasmo que sentíamos na fila e pôr um pouco de calor no gelo de nossa mudez.

– Que cara tem o boi que vai morrer? Com gracejo lhe indaguei, somente para alimentar a prosa.

– Pergunte a minha vizinha. Ela vai te dar uma grande resposta de boi qui nóis é.

– Porquê sua vizinha e . . . quem é ela?

– É mãe de cinco fio e dona de uma pitizaria que foi visitado treis vêis sumana passada: quarta, quinta e sexta. Ainda bem qui eles isquecero o sábudo e dumingo. Já tava inchendo o saco.

– Políticos?

– Não. Ladrão. Assaltante. – Levaro toda a mincharia dela e eu tive que emprestar cem real do meu, pra mode ela pagar a lúis e comprar farinha. Viu só o qui é ser igual a boi? É isso ai. A gente trabaia, trabaia, trabaia pra mode viver e vem quarqué malandro e pimba . . . mata nóis. Ela só não morreu porque Deus é bom e não foi sua hora. Tirou ela da reta.

– Pensei que você falava sobre a fila. Afinal, o que isso tem a ver com boi que vai morrer? Questionei apenas para ver até onde ele ia com aquela conversa fiada.

– É qui boi quando vai morrer não é na fila? E donde é qui nóis tá? Na fila, ué! Sorridente, concluiu com seu fraco raciocínio, louvável de desatenção por falta de nexo, mas de extremo respeito frente a sua provável escolaridade. Ficamos um pouco silenciosos no meio do empurra-empurra, quando repentinamente ele desabafa: – môço, a gente vévi com um ovo e um punhado de quarqué coisa, enquanto que os prêso vévi cumendo do bom e do mio, sem trabaiá sem nada. Quero ver esse cabra ai resorver esse causo – referia-se a uma foto de certo candidato jogada ao chão e continuou – nóis tem qui cumê mió do que eles ( os presos) e não eles mió do que nóis. A gente vai ponhá um cara pra mode mandar ni nóis e adispois, ele nem nos conhece. Adonde vai dá? Tumara que esse prisidente arrume as coisa. Do jeito qui tá, num pode. Concluiu seu lamurioso discurso recheado de barbarismos e cacófatos. – Barbaridade da Silva! – Ele sequer passou para a segunda série, foi o que pensei. Porém, muito animado com aquele palatal tiroteio e precisando ouvir seus disparates com figuras de linguagem, passei a dar-lhe mais atenção e, após breve espaço de meditação, ele dispara outra oratória: – O disimprêgo tá fogo ôme. Antigamente o cabra trabaiava pro fazendêro pra mode tumar conta de uma rês prenha e dispois qui ela paria, ele ia tumar conta do fio ou da fia dela, variava, mas o cabra continuava ali impregado. Hoje, quem faz isso tudo é o patrão. Não tem mais imprêgo nem aqui, nem na roça.

– E de quem é a culpa? Não vai me dizer que é do fazendeiro? Perguntei enquanto observava que todos nas proximidades nos olhavam silenciosos, como se ouvindo uma Sinfonia de Beethoven.

– Do prisidente. Ele nem óia pus pobre. Só dá dinheiro pra quem já tem. Quem tem pouco, divide com quem tem nada e quem tem muito, nada dá pra quem não tem.

Após esta incrível filosofagem senti firmeza no Silva. Até senti uma onda vibratória, como se aquela multidão estivesse dando-lhe uma imensa salva de palmas, que certamente, em silêncio o dera.

– Você é parente de japonês? Apenas por curiosidade indaguei.

– Sou nortista legítimo e dos bom. E sorrindo concluiu: – Alagoano.

– Que bom. Respondi quase lhe dizendo que Alagoas não é no norte. Mas, tudo bem. Contentei-me com aquele pequeno diálogo, distante das inverdades que se ouve por ai e por ter conhecido alguém que tentou matar o tempo: o mau tempo. Tempo das desesperanças de muitos da fila, que ao ouvi-lo, votaram conscientes. Eu também votei consciente, sentindo-me como um aluno de Sócrates em algum jardim de Atenas

Palmas para o Silva.

Palmas.

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3 Comentários on "O Grande Papo"

  • Leandro diz

    Muito interessante a linguagem que o autor aqui aplicou, com bastante clareza e realidade.

    Parabéns.

    Léo

  • Zé Pedreira,

    Muito boa esta sua crôncia. meus parabéns!

  • Anna Célia Dias Curtinhas diz

    Gostei das crônicas. São ótimas. Sou Anna Célia Dias Curtinhas, moro em Vitória, ES e sou cronista também. Gostaria de fazer parte deste site.Um feliz Ano Novo repleto de paz e alegria para todos vocês. Um abraço. Anna Célia

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