O Réu Negro

Em meados do século XX, havia um pequeno povoado incrustado no coração do árido sertão baiano, onde lá seu povo vivia feliz, cheio de prosa e verso. Foi nesse clima de pureza do corpo e da alma que aquele povo foi surpreendido com um episódio não muito peculiar para aquela realidade: a violência. Esta, desencadeada a partir de uma denúncia de roubo.

– Pela acusação de roubo, estás condenado a tomar três dúzias de palmatoadas – disse a autoridade, mostrando ao seu cativo, o instrumento da execução: uma pesada palmatória.
– Pelo amor de Deus não me bata. Sou inocente. Não me bata
– Abra a mão, (pa) – zunia a palmatória. – A outra mão(pa), a outra, a outra, abra a mão, (pa, pa, pa,. . .).

Em seguida, gritos espantosos, barulhos infernais causando arrepios e arregalo de olhos, apavorando a consciência daqueles que o inocentava, ao tempo em que seus algozes se enchiam de júbilo e alegria.

– A outra mão (pa), a outra (pa). Onde está o dinheiro? E a tortura permanecia a castigar-lhe na carne e na alma, como se ele não fosse humano. A ordem de “abra a mão” , “a outra mão”, ressoava em seus tímpanos como um rosnar de satã. Não lhe haveria escapatória.
– A outra mão (pa), a outra (pa), onde está o dinheiro? Fale. Cadê? Fale.
– Pelo amor de Deus, não fui eu. Não me mate. Sou inocente, inocente.
– Das três dúzias, ainda lhe falam uma e meia. Fale, onde está o dinheiro? (pa), abra a mão, a outra, a outra, a outra, cadê o dinheiro? Diga. Aonde escondeu os vinte mil réis?
– Por Deus eu lhe peco. Não me mate, não roubei ninguém.
– Você roubou o dinheiro de quem ia comprar mercadorias para o armazém: vinte mil réis. Foi você seu negro sujo, ladrão, filho da puta. Vou lhe capar seu mijão e depois vou fazer você comer sua própria carne. Onde está o dinheiro?

Todos os olhos e todos os ouvidos do lugar estavam lá: lá na frente, do outro lado da parede. Na rua. Todos queriam testemunhar áudio e visualmente aquela violação imposta por um veredicto sargental, pois ali estava em carne e osso a maior autoridade abaixo do céu: o sargento Salomão. Fazendo a sua particular justiça e impondo seus limites jurisdicionais a seus cabisbaixos subalternos. Verdadeiro Calígola dos tempos modernos. Episódio retrógrado. Velhos tempos medievais transportados para aquele momento, ali, na carne de um negro indefeso.

Um pelourinho aqui, outro ali. Não importa. Tinha-se ali um negro que pôr pouco, muito pouco, não esteve acorrentado nas plantações de seu amo, mas que agora, estava ali, subjugado sob as ordens do sargento Salomão, senhor absoluto da lei local, da sua própria lei. – Ele era um negro ladrão e pronto. Hei-lo ali, acuado, humilhado, maltratado na carne e na alma, olhado, olhado, olhado
.
– Vou descansar minha palmatória pôr uma hora. Depois, você me dirá onde está o dinheiro. Entendeu? Seu negro ladrão. Logo voltarei e você há de se acusar. É a lei, a minha lei, a lei do sargento Salomão. Entendeu?

O réu, cabisbaixo e em prantos, é levado para seu cárcere: um quarto de dois por dois, por três metros de altura. Telhado de barro cozido, uma porta de sucupira e um visor quadrado, que dele via-se todo o interior da cela, e lá dentro, o negro Mundinho, assim chamado ao invés de Raimundo, Edimundo ou como fora batizado, não importa. Gemia tal qual um suíno na hora do seu abate. Suas mãos vermelhas como fogo, começavam a bolhar, seus olhos aterrorizados corria em suas órbitas descontroladamente, indo à procura de todos os outros, num único desespero, implorando por um socorro que não podia ter .

Mãos inchadas. – Ainda me restam algumas palmatoadas. Nada mais me doía do que as palavras ouvidas e repetidas e que agora na paz de meu cárcere passavam-lhe na mente tal como um disco quebrado, que fica a repetir a música: “onde está o dinheiro?”, “Fale”. “Diga”. “Onde escondeu os vinte mil réis?”. ‘Negro ladrão”. “Filho da puta”. “Vai comer sua própria carne”. “Salomão, Salomão” “Entendeu?”. Tudo isso, repetia, repetia e repetia. Vou enlouquecer. Não agüento Ainda vou apanhar.

Era um terrorismo mental
Soprava suas mãos desesperadamente e a sede era implacável. – Melhor seria não ter nascido. Não seria “negro ladrão, filho da puta, nem estaria sob a lei do sargento Salomão, castigado e humilhado”.
Velho Sertão cheio de histórias e estórias, de amor e ódio e de tudo um pouco.

Ninguém arreda o pé. Todos estão lá fora de plantão para registrarem o final deste triste veredicto.

É quando o acusador narra mais uma vez a sua versão do fato

– Mandei este negro, este ladrão ai, preparar meu cavalo. Eu tinha que viajar para fazer compras do armazém. Coloquei nos alforges tudo de necessário para a viagem: roupas, comida e o dinheiro: vinte mil réis. Forrei a sela com um coxim macio e dentro dele. . . dentro dele. . . dentro. . . deeeele!
– Sim. Dentro dele? Inquiriu o sargento Salomão.
– O dinheiro. O dinheiro. O dinheiro estava lá.

Diz o acusador com as mãos na cabeça .

– Pelo amor de Deus. O negro é inocente, inocente. Soltem-no – gritava – O dinheiro não estava dentro dos alforges como pensei. Está dentro do coxim e eu sentado nele. Como pode eu fazer assim de Mundinho? Me perdoem, me perdoem. Mundinho me perdoe.
– Soldado. Traga-me o negro.
Instantaneamente ele retorna e diz
– Sargento. O negro fugiu pelo telhado. Lá está o buraco nas telhas.
– Como?

Nunca mais se ouviu falar do negro Mundinho.

Nem vivo, nem morto.

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2 Comentários on "O Réu Negro"

  • Marcelo Torres diz

    Gostei muito do texto, q prende o leitor até o final. Aliás, o final foi muito bom e nos deixa pensando sobre o q teria ocorrido com a(o) personagem. Parabéns, J. Pedreira (ou Tico Cruz). Continue nos brindando com textos maravilhosos.

    Marcelo Torres (josemarcelotorres@bol.com.br)

  • Será que negros e índios não tem alma? Quem é realmente um masoquista? Quem é o 8º rei do Apocalipse? Acessar e divulgar o blog: http://www.laurohenchen.blogspot.com

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