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O Réu Negro - (09-09-2002) - por J. Pedreira Em meados do século XX, havia um pequeno povoado incrustado no coração do árido sertão baiano, onde lá seu povo vivia feliz, cheio de prosa e verso. Foi nesse clima de pureza do corpo e da alma que aquele povo foi surpreendido com um episódio não muito peculiar para aquela realidade: a violência. Esta, desencadeada a partir de uma denúncia de roubo. - Pela acusação de roubo, estás condenado a tomar três dúzias de palmatoadas - disse a autoridade, mostrando ao seu cativo, o instrumento da execução: uma pesada palmatória. Em seguida, gritos espantosos, barulhos infernais causando arrepios e arregalo de olhos, apavorando a consciência daqueles que o inocentava, ao tempo em que seus algozes se enchiam de júbilo e alegria. - A outra mão (pa), a outra (pa). Onde está o dinheiro? E a tortura permanecia a castigar-lhe na carne e na alma, como se ele não fosse humano. A ordem de “abra a mão” , “a outra mão”, ressoava em seus tÃmpanos como um rosnar de satã. Não lhe haveria escapatória. Todos os olhos e todos os ouvidos do lugar estavam lá: lá na frente, do outro lado da parede. Na rua. Todos queriam testemunhar áudio e visualmente aquela violação imposta por um veredicto sargental, pois ali estava em carne e osso a maior autoridade abaixo do céu: o sargento Salomão. Fazendo a sua particular justiça e impondo seus limites jurisdicionais a seus cabisbaixos subalternos. Verdadeiro CalÃgola dos tempos modernos. Episódio retrógrado. Velhos tempos medievais transportados para aquele momento, ali, na carne de um negro indefeso. Um pelourinho aqui, outro ali. Não importa. Tinha-se ali um negro que pôr pouco, muito pouco, não esteve acorrentado nas plantações de seu amo, mas que agora, estava ali, subjugado sob as ordens do sargento Salomão, senhor absoluto da lei local, da sua própria lei. - Ele era um negro ladrão e pronto. Hei-lo ali, acuado, humilhado, maltratado na carne e na alma, olhado, olhado, olhado Mãos inchadas. - Ainda me restam algumas palmatoadas. Nada mais me doÃa do que as palavras ouvidas e repetidas e que agora na paz de meu cárcere passavam-lhe na mente tal como um disco quebrado, que fica a repetir a música: “onde está o dinheiro?”, “Fale”. “Diga”. “Onde escondeu os vinte mil réis?”. ‘Negro ladrão”. “Filho da puta”. “Vai comer sua própria carne”. “Salomão, Salomão” “Entendeu?”. Tudo isso, repetia, repetia e repetia. Vou enlouquecer. Não agüento Ainda vou apanhar. Era um terrorismo mental Ninguém arreda o pé. Todos estão lá fora de plantão para registrarem o final deste triste veredicto. É quando o acusador narra mais uma vez a sua versão do fato - Mandei este negro, este ladrão ai, preparar meu cavalo. Eu tinha que viajar para fazer compras do armazém. Coloquei nos alforges tudo de necessário para a viagem: roupas, comida e o dinheiro: vinte mil réis. Forrei a sela com um coxim macio e dentro dele. . . dentro dele. . . dentro. . . deeeele! Diz o acusador com as mãos na cabeça . - Pelo amor de Deus. O negro é inocente, inocente. Soltem-no - gritava - O dinheiro não estava dentro dos alforges como pensei. Está dentro do coxim e eu sentado nele. Como pode eu fazer assim de Mundinho? Me perdoem, me perdoem. Mundinho me perdoe. Nunca mais se ouviu falar do negro Mundinho. Nem vivo, nem morto. |
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Marcelo Torres - josemarcelotorres@bol.com.br 07-10-2002 06:12
Gostei muito do texto, q prende o leitor até o final. Aliás, o final foi muito bom e nos deixa pensando sobre o q teria ocorrido com a(o) personagem. Parabéns, J. Pedreira (ou Tico Cruz). Continue nos brindando com textos maravilhosos. |