Duas Crônicas: #1 de 2

#1

Já passava do meio-dia quando a fome atacou. Minha gastrite, claro, agradecia de maneira singela: pontadas horríveis. Da sala ao lado, o pedreiro continuava a martelar o piso…ótimo, agora são duas as pontadas, uma nos tímpanos e outra, a minha amada gastrite.

Estava sentado na mesa do escritório do Osório, meu chefe, esperando-o chegar para podermos conversar a respeito do meu aumento de salário…! Fiquei vidrado no seu relógio de parede cinza de ponteiros brancos e números amarelos. Via os ponteiros interagirem entre si. Contava junto com o ponteiro de segundos: “11, 12, 13, 14, 15…59, 12 horas e 27 minutos, 1, 2, 3…”

Não dei conta de reparar o Osório adentrar no escritório e, prestar atenção na minha atitude. Ele não disse nada. “56, 57, 58, 59, 12 horas e 51 minutos, 1, 2…” Que patético. ‘Pois não ?’ , perguntou ele. Fui pego de supetão, estava contando o tempo….

– Diga-me, este é seu hobby ?
– Não senhor, só faço isso quando fico impaciente.
– Sei.
– O senhor…é…
– Sim.
– Sabe… a minha situação é a seguinte…
– Não me interessa sua situação, se quiser pode se retirar, não lhe darei o aumento, mesmo sabendo que seu trabalho mereça uma retribuição maior, entende?
– Claro, bom, então deixe-me voltar ao trabalho, e obrigado por sua compreensão Sr.
– Disponha.

Sentei-me na minha cadeira, da minha mesa e continuei o meu contar, no relógio central, da Praça XV, através da janela a minha frente…”59, 13 horas e 01 minuto.”

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1 Comentário on "Duas Crônicas: #1 de 2"

  • cristina diz

    Uns contam o tempo, ouros roem as unhas, outros ainda, quando impacientes, entram na internet e leêm essas coisas legais…

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