Solteira, Avulsa e Desamarrada

Bom, existem certas coisas que a gente não sabe como começar a contar. Certas coisas como aquelas burradas que a gente faz na vida e que todo mundo descobre e você não sabe como contar para se livrar um pouco da mão pesada que aperta a consciência. Hoje, penso que precisava urgente de um lap top porque minhas grandes idéias, ou as piores idéias surgem no período da madrugada seguidas de minha inseparável insônia que me persegue mais fortemente desde o começo desse ano.
Todo escritor diz que o difícil é começar que se você começa o resto é fácil. Difícil também, creio eu, seja agradar o leitor com aquele fim maravilhoso que as pessoas falam esse cara é muito bom. E saber que eu escrevo para quem??? Boa pergunta que me fiz agora. Fico pensando se pelo menos o maravilhoso, divino, lindo Mário Prata passasse os olhos por aqui, mas é impossível, porque acho que o vou contar pelas linhas afora o faria pensar: quem é essa louca??? A Lygia Fagundes Telles também me deixaria felicíssima. Mas, vamos ao ponto.

Há uns dois fins de semanas passados parei numa praça de uma pacata cidade do interior de São Paulo e fiquei horas observando um menino de mais ou menos uns oito anos empinando uma pipa colorida e com uma rabiola enorme. Naquele momento daria tudo a minha vida em troca da paz dos movimentos daquela pipa e a trocaria também pela vida daquele menino. Tive uma fase que pensei que sabia tudo, mas se tratando de você eu não sei nada. Nessa praça tinha uma cigana ela se aproximou de mim e o mais interessante é que não me pediu dinheiro apenas afirmou: você tem alguma dor no coração. Virei o rosto respirei e pensei: era o que me faltava. Irritadíssima disse que quem não tem dor no coração, principalmente, de amor. Ah, dor de amor, não tem coisa pior. O homem ainda não inventou coisa pior nessa vida. Você não decidi se você não quer mais a pessoa porque não gosta mais, ou porque prefere coisa melhor, ou porque magoou tanto que acabou perdendo, ou foi traída, ou desfez e depois se arrependeu…. o dor inconsolável, amarga, sufocante, estressante, dolorida.

Vamos analisar uma vida de solteiro. A vida de solteiro, ou avulso, como queiram, eu particularmente prefiro usar a palavra solteiro porque solteiro é aquela pessoa que ainda não se casou, mas o avulso é aquele que é jogado para as cobras. Esses dias estava ao cinema de forma “avulsa”, evidente cercada de casais e num momento existencial pensei comigo: não tem nada me incomodando. É bonito ver as pessoas se amando. Acabou o filme, um filme romântico- detalhe- fui ao encontro da saía quando notei que uma chuva horrível caía. Fiquei debaixo de uma parte coberta esperando a gentileza de São Pedro fazer com que pelo menos diminuísse para que fosse de encontro ao carro. Do meu lado parou um moço, fiquei imaginando sua idade, sua história de vida, seus pais, sua família, se era uma pessoa irritada, se era calmo- virtude rara atualmente- já que não existem mais pessoas calmas nessa vida. Esta todo mundo nervoso, ninguém esta calmo e quando está logo fica nervoso. Mas tudo bem, me deu vontade de pedir a ele que me pedisse para encostar mais perto dele. Fiquei imaginando nós dois ali abraçadinhos esperando a chuva se acalmar. Ou então, que a chuva caísse mesmo e cada vez mais forte. Quer coisa melhor de estar abraçado com alguém escutando o barulho da chuva??? Pensei em perguntar se ele estava com frio. Pensei em perguntar se ele não queria viver comigo, porque sou extremamente agradável e romântica. Será???? Doce??? É muita qualidade para uma pessoa só.

Nessa hora senti saudades, saudades de mim, saudades de minha infância, saudades dele, que nem conhecia. Vontade de tê-lo comigo, para sempre. De levá-lo para casa e de saber seu dia. Sim, assumo que tive essa vontade. Essa é a maior carência de uma pessoa solteira ou avulsa quando se sente sozinha. Sozinha na vida e só por dentro de si. Só sem você própria. Freud, pai da Psicanálise não soube nos ensinar a sentir dor de amor na prática.

Um solteiro desprovido, assumido e feliz pensaria: vou sair correndo daqui e vou direto para o bar tomar umas e ter aquela ressaca de dar gosto no outro dia. Daquelas que a gente pensa antes de abrir os olhos no outro dia. Abre no máximo um olho, só para sentir o movimento do estômago. Uma pessoa solitária e feliz pensaria assim. Agora, um avulso feliz, mas que embora esteja procurando por alguém fica com a cabeça cheia de teorias que quando vão embora o sono é perturbado por elas. É fogo. Mas sabe o que é isso? É o amor. É a necessidade de amar, de ter alguém, mas ser feliz. Isso Freud não explicou, logo ele pai da Psicanálise.

A chuva estava lá melhorando, quando o moço olhou para mim e disse: agora dá para chegar ao carro, saiu correndo e se foi. Eu pensei: quer ir no meu? Mas ele não ouviu meu pensamento. E eu fiquei ali solteira, avulsa, linda e loira. Quando será que vai cair outra chuva forte para pegar um cineminha? Bom, vou consultar a previsão te tempo.

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2 Comentários on "Solteira, Avulsa e Desamarrada"

  • anninha diz

    Adorei, moça. Adorei do começo ao fim. Não sei se pelo auto-diálogo-com-participação-ativa-do-leitor, se pela identificação de sentimentos e atitudes (até a vontade de pedir pro moço pedir que chegue + perto!) ou se pelo jeito gostoso e bem humorado do texto.

    Fiquei me perguntando o que teria acontecido com a pipa do menino da praça do interior de SP… tão sereno ele…

    Gostei mto. Manda ver!!!

  • Patricia diz

    Bom, adorei e me identifiquei, e por isso me junto as solteiras e avulsas, pq Freud não nos deu uma explicação. Ser bem humorada e contar de forma divertida é até legal, mas ser sozinha, doi!!!!

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