Tomates Italianos

Nunca acreditou em amor à primeira vista, por isso nunca se arrumava para ir ao supermercado e descia o elevador de pijama quando tinha que buscar algo na garagem.
Por isso, naquele dia ela usava uma calça de moletom desbotada, camiseta velha, chinelo e… meia. Sim, eu não queria contar, mas a verdade deve ser dita. Ela usava chinelo e meia porque achava que, na feira, ninguém ia mesmo reparar. E fazia frio. Então ela estava escolhendo tomates italianos quando suas mãos quase tocaram essas outras mãos. Não é exagero dizer, eles escolheram o mesmo tomate. Olhou para ele, sorriu e enrubesceu. Ele era lindo (o homem, não o tomate), havia escolhido o mesmo tomate que ela, a mesma feira que ela e a mesma manhã de terça para fazer a feira. E ela de chinelo e meia, devo enfatizar. Ele só poderia ser o homem perfeito, pensou, um homem que faz feira terça-feira de manhã. Deve morar sozinho, ter um emprego flexível. Não sei se deu para perceber, mas ela o mediu de cima em baixo. E é lindo, muito lindo. Bom, ela precisava dizer alguma coisa. Ele queria o mesmo tomate que ela. Isso deveria ser um sinal. Sentiu a pele do rosto queimar. Isso porque estava frio (o chinelo e a meia, como já foi dito…).

– Pode pegar. – ele falou. E sorriu, que gentil!
– Bom, pega você. Acho que você escolheu primeiro – Respondeu, e se sentiu estúpida.
– Bom, sei lá. Eu nem sei escolher tomates muito bem.
– Ah, tomate não tem segredo. O problema é escolher abacaxi – Ah? Abacaxi? Do que estou falando?
– Ah, abacaxi eu sempre peço pra alguém escolher pra mim. Minha mãe sabe escolher, ela cresceu na roça, sabe? Mas eu… Aliás, eu não sei cuidar muito bem de mim, não.
– Você mora sozinho?
– Moro com meu irmão. Já faz dois anos, mas cansei de comer congelado, enlatado e ensacado. Este ano quero aprender a cozinhar, sabe? Comer frutas, salada…
– Ah, promessas de ano novo, né?
– Pois é… Você fez alguma?
– Ah! Sim, fiz. Andar de bicicleta todo dia.
– E você está cumprindo?
– Não. Hahahahá!

Riu, e ele riu também, e falou do quanto ele também gostava de andar de bicicleta, de quão próximos eles moravam (e nunca tinham se visto), dos seus trabalhos, dos seus cachorros, das suas famílias, das suas dúvidas em relação ao sentido de tudo aquilo, e a mulher dos tomates só olhando, mas eles não a viam, e ele também não via o seu chinelo e a sua meia, só via o brilho que saía dos olhos dela, e dos dele. E falavam, e tá barato, freguesa, e falavam, e é só escolher, minha senhora, e falavam. E largaram os tomates, e comeram um pastel, ela esqueceu as pêras e ele, o alface na barraquinha do caldo de cana. Ela esqueceu das horas, e ele, do que tinha ido comprar lá. Esqueceram promessas de fim de ano. Esqueceram que era terça-feira. Depois que a feira acabou, já tinham esquecido completamente como era a vida um sem o outro.

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4 Comentários on "Tomates Italianos"

  • Rafael diz

    Acho que vou chorar! Poxa, isso não se faz. Não sei se é o momento, mas gostei muito da história.

  • anninha diz

    Putz grila!

    A-M-E-I!!!

    Mesmo muito bom o texto, a história, os chinelos, abacaxis e todas as promessas…

    Sabe, a verdade deve ser dita, textos como esse renovam minha, às vezes esquecida, esperança…

    I love love stories…

    Bjo, mocinha.

  • Paulo diz

    Camila, parabéns!! Um texto todo mágico, um último parágrafo primoroso!!! Simplesmente EXCELENTE!!

  • anninha diz

    Camila, hoje tem feira aqui na esquina, acho que vou tentar. Quem sabe eles têm tomates italianos…??? *rs*

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