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A Caixa - (03-11-2002) - por Eduardo Amodio Quando seu pensamento recaÃa sobre a caixa, ela dizia: “Nunca!”. Era tudo o que restava a ela, mas o senhor que lhe entregara aquela pequena caixa dissera para que nunca a abrisse. E ela tinha palavra; e essa palavra era “Nunca!”. Não tinha mais nada, ninguém com quem contar, mas se agarrava à certeza de que aquela caixa nunca deveria ser aberta. Sentada na cadeira, cotovelos sobre a mesa e mãos apoiando um rosto cansado, deixava que seus olhos definissem os contornos do objeto quadrado, fechado apenas por um durex. O que haveria lá dentro? De que vale a posse de algo que nunca poderemos ter de fato? Essas dúvidas pareciam a ela tão imorais quanto a simples idéia de puxar a fita adesiva e abrir a tampa. Mas o que sairia dali? Que segredos deixariam de existir se a caixa fosse aberta? E que pessoa horrÃvel seria ela se não cumprisse sua palavra? Mas a realidade econtra-se muito longe da ética e seu dilema não era uma simples questão de lealdade. O verdadeiro obstáculo que se colocava entre ela e aquela caixa era um medo ainda inconsciente: o que teria ela se desse cabo de sua última expectativa? Toda essa reflexão não resolvia seu problema de forma alguma, talvez a solução estivese lá dentro, quem sabe a desobediência fosse a única condição. Definitivamente as esperanças estavam todas depositadas no interior daquela caixa. Se algo ainda lhe pertencia, esse algo estava lá dentro. Era dela e estava ao seu alcance. Com um leve tremor nas mãos tocou a caixa e raspou com as unhas o durex que a lacrava, mas subitamente o movimento de seus dedos foi interrompido por um pânico incontrolável. O medo da perda se instalara em seus músculos e a fizera refém. De súbito, ela se deu conta de que a caixa poderia estar vazia e que poderia perder a única coisa que realmente restara. Ficou, então, dessa forma decidido: na última prateleira da estante, lá no alto, fora do alcance de suas mãos, iria morar a caixa. Fechada e intacta. Agora ela sabia, aquela esperança era sua e jamais iriam tirá-la de si. |
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volponi - link - volponi@cronistasreunidos.com.br 27-11-2002 09:39
A caixa se revolveu, portanto: seu conteúdo era o enigma. Gostei, Eduardo! |
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Felipe - link - felipedepaulasouza@bol.com.br 11-01-2003 09:08
Muito bom… lembrei da caixa da Fedex que o náufrago deixou com ele no filme… o conteúdo exato não interessa… |