Duas Crônicas – 2 de 2

#2

Segui-me no caminhar. Rindo muito por dentro. A loucura, às vezes, assusta por trazer à luz os medos das profundezas escuras do ser.
Em frente a uma banca de jornal, um velho parou-me. Olhou-me. Silêncio.
Senti-me ofendido, mas não disse nada, apenas dei um passo à esquerda e entrei na banca. O velho… não sei. Por que devo dizer algo a seu respeito ?

Na banca, os chicletes…ah, os chicletes de sabor morango. Comprei dois, mascava um, folheando a revista pornô mais famosa da época, enquanto aguardava o troco que o vendedor contava com agouro, atrás do balcão. Contava e recontava aquelas míseras moedas enquanto chiava algo como: “…e esse merda nem pra levá a revista…”, sim, a revista… página 37, que curvas…

Recolhi as moedas ao bolso direito e saí da banca. Para meu desatino, o velho. Saco, de novo na minha frente parou. Dessa vez fiz diferente: “Velho, o que há de errado ?”

Após minutos, dois para ser exato, aguardando uma resposta, tomei conta de perceber sua mão esquerda, imunda, levantada com a palma para cima: mendigava.

Saquei as moedas do bolso, míseras, e joguei-as ao velho que sorriu com dentes podres. O dono da banca observara tudo. Quando me afastei, ouvi os gritos de fúria…que cena exdrúxula.

O dono da banca espancava o velho com porrete para tomar-lhe as míseras…moedas.
Peguei o outro chiclete de sabor morango e, masquei-o enquanto observava a luta. E que paulada o velho tomou na cabeça, caiu desmaiado sobre a grama ainda cheia de orvalho. O dono da banca sacou as moedas, as pôs no bolso, correu até a esquina e chamou o guarda. Este último, pegou o velho e levou-o embora dali.

O dono da banca sorria, contando as míseras…uma a uma.

Compartilhe!

1 Comentário on "Duas Crônicas – 2 de 2"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *